sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Os Horrores da Cultura Pentecostal: Pregadores Mirins

O pastor Ciro Zibordi postou em seu blog que os pais de pregadores mirins devem permitir que suas crianças tenham uma vida normal; isto é, que crianças pregadoras devem ter tempo para serem crianças, não devem ser arrastadas por um circuito de shows/pregações em igrejas. Mas que é perfeitamente ok colocar uma criança no púlpito.

Eu discordo. Esta mania perversa de treinar crianças pregadoras não apenas traumatiza as crianças¹, mas prejudica a própria igreja ao fazer uma criança assumir a maior responsabilidade de todas no culto evangélico: expor a Palavra de Deus. É uma banalização horripilante daquilo que nosso culto tem mais precioso.

Mas como uma afirmação tão auto-evidente e óbvia como esta ainda será disputada por algumas pessoas, aí vão quatro motivos pelos quais é uma péssima idéia colocar crianças no púlpito.

1) A pregação requer exegese do texto bíblico. Pregar não significa gritar palavras de ordem para uma multidão. Pregar não significa esbravejar contra a igreja por ela não ser pentecostal o suficiente², ou santa o suficiente. Pregar é expor a palavra de Deus, é pegar um texto bíblico e tentar trazer o significado dele para seus ouvintes. Exegese requer paciência, disciplina, leitura cuidadosa dos textos. Requer atenção para o contexto histórico e cultural de cada passagem, atenção para os temas teológicos envolvidos, atenção para as formas em que cada texto é usado em outras passagens. Requer atenção para possíveis erros de interpretação, atenção para as formas em que cada texto tem sido interpretado em quase vinte séculos de tradição cristã. É uma atividade demorada, complexa, e intelectualmente exigente. Existem muitos adultos (e adultos piedosos, santos, e inteligentes) que não possuem o cuidado, a paciência ou a capacidade que a exegese requer; é impossível esperar isto de uma criança. Uma criança pode repetir uma história bíblica; ela pode gritar no microfone as ordens que Paulo dá em suas epístolas; mas ela não tem a capacidade intelectual de extrair do próprio texto sua mensagem, e de relacionar a mensagem deste texto com a totalidade da doutrina cristã e com a vida dos ouvintes.

2) A pregação requer a organização das idéias do texto num discurso inteligível e coerente. Proponho um experimento aos defensores dos pregadores mirins: peguem uma criança de oito anos, e façam-a ler algum texto da antiguidade pagã; pode ser o Épico de Gilgamesh ou a Ilíada, ou qualquer outro. Agora peça-a para instruir um grupo de adultos (que todos leram estes textos antigos há anos, alguns já mais de vinte vezes) a seu respeito. Você acha que esta criança faria um trabalho minimamente competente em expor o significado deste texto pagão? Então como você espera que ela faça o mesmo com o texto que é, em nossa fé, a revelação do próprio Deus? Mesmo se admitirmos que ela tem a capacidade de entender plenamente o que foi escrito pelos autores bíblicos (e eu já disputei esta idéia no ponto anterior), você realmente acha que a criança tem capacidade para organizar as idéias do texto, e educar um grupo de adultos quanto ao seu significado e aplicação para hoje? Você já aprendeu algo de um sermão pregado por uma criança? E olhe que na maioria dos casos a organização das idéias do texto para o formato do sermão nem é feita pela criança, e sim seus pais. Os pais da criança infeliz preparam um sermão, e então fazem a criança repetí-lo. Isto não é pregação. Se isto for pregação, então um papagaio treinado para repetir as mensagens de Spurgeon³ também é um pregador. A acusação do Pr. Zibordi, que existem algumas crianças que são somente pequenos animadores de auditório, ignora o problema real: que toda criança pregadora é, de uma forma ou outra, uma pequena animadora de auditório. Algumas animam o auditório gritando espalhafatosamente; outras pela repetição mecânica de um sermão ensaiado com os pais; mas nenhuma criança realmente pode pregar o evangelho.

3) A pregação requer experiência de vida. Eis algo tão óbvio que tenho vergonha até de escrevê-lo: a aplicação de um texto para as realidades e necessidades da congregação requer uma compreensão básica das realidades e necessidades da congregação! Uma vez que o texto bíblico foi compreendido, e sua mensagem foi comunicada, como uma criança de nove anos poderia fazer esta mensagem aplicável aos seus ouvintes? Como pregar uma palavra de consolo quando a sua maior tristeza na vida foi ser proibida de ver o show dos Jonas Brothers? Como pregar sobre a alegria no Senhor quando sua única compreensão de alegria é em termos de brinquedos e doces? Uma criança não entende (ainda) as dificuldades diárias que 99% das pessoas experimentam. Uma criança nunca sentiu dúvida em seu coração; nunca soluçou uma oração desesperada por uma cura que nunca veio; nunca maravilhou-se da graça que perdoa pecados porque ela própria não entende o quanto é pecadora, e o quão desesperadamente necessitamos da misericórdia de Deus. Não estou dizendo que apenas velhinhos que já provaram de tudo da vida podem pregar; não estou dizendo que homens solteiros não podem pregar a homens casados, ou que é proibido pregar em funerais até que alguém de sua família morra. Mas vamos todos admitir que a autoridade moral de um pregador é oca até que ele tenha um reservatório de experiências pessoais ao qual ele pode voltar para extrair uma aplicação ao texto. Este é um motivo pelo qual pregadores mirins são ridiculamente impiedosos: gritam com os irmãos; exigem que as pessoas dêem glória a Deus por alguma promessa vazia, conjurada entre um segundo e outro de uma passagem mal interpretada; urram que a vida cristã consiste apenas de vitórias; ridicularizam os fracos, desafiam impudentemente os calados. É muito fácil exultar na idéia de que a vida do crente é uma de ininterruptas conquistas espirituais, milagres e bençãos quando só se provou uma única gota (se tanto) do cálice de tentações, decepções e amarguras que cada um de nós precisa tomar até o fim.

4) A pregação requer uma vida com o Espírito Santo. Não estou falando de dons espirituais ou de fenômenos pentecostais; estou falando de santidade, de vencer diariamente a tentação diária, de amar a Deus mais do que a si mesmo. Estou falando de maturidade espiritual, de intimidade com o Senhor, de uma vida compromissada com Jesus Cristo e sua Igreja. O pregador não é apenas um expositor da Palavra; ele é um homem santo, um servo do Senhor, um emissário de Deus. O púlpito não é, e não deveria ser, um espaço democrático, mas o lugar onde uma pessoa chamada por Deus desempenha uma função sagrada. E isto requer não apenas o preparo e a experiência de vida que mencionei acima, mas experiências com Deus- de sua misericórdia, de seu poder salvador, da beleza do Senhor- que vão além de orar ao papai do céu toda noite. Não estou dizendo que crianças não podem amar a Deus; mas maturidade espiritual requer também maturidade intelectual e emocional. Em I Co. 3, Paulo criticou os coríntios por serem criancinhas em Cristo; o que ele diria se soubesse que fizemos de criancinhas de verdade os pregadores daquilo que ele, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu? Quando se tornou permissível que os membros mais imaturos da igreja assumissem a autoridade do púlpito?
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¹ E arruina a fé delas no processo. Ou ninguém lembra de
Marjoe Gortner?
² Uma das marcas do pregador canalha: exigir que seu público a aplauda e dê glória a Deus pelo que ele acabou de dizer. E minha pentecostalidade é medida pela quantidade de améns e aleluias que eu grito durante uma pregação?
³ É um papagaio reformado.

8 comentários:

Fernanda disse...

Agreed. E você já disse tudo, então só o que me resta é dizer que ri muito com a tristeza infantil por não poder ir ao show do Jonas Brothers. Eu mesma padeci desse mal aos onze, só que com os Backstreet Boys (que são muito melhores, me perdoem as meninotas por aí).

(Queimações de filme à parte, estou adorando o ritmo de posts. COntinue, continue! :^D)

R. M. Ben disse...

E além de tudo isso, acho que o fato de crianças pregarem mostra também que, em muitos casos, não há adultos com maturidade suficiente para pregar a palavra! É um mal menor diante do grande período de ignorância que uma parte (para não dizer boa parte) da Igreja está imersa.


E... Spurgeon papagaio reformado? Sou o único que sorri sempre que depara com o inconfundível estilo dele de pregar?

João Lemos dos Santos disse...

*Spoiler alert, explicação da piada adiante*

Opa! Eu nunca chamei o Spurgeon de papagaio; ele foi o príncipe dos pregadores, ora, hehehe. Estou dizendo que o (hipotético) papagaio pregador de mensagens de Spurgeon seria reformado, dado a sua escolha de pregadores.

R. M. Ben disse...

Ah! Oh!

Constrangedor não entender uma piada na primeira vez.

=/

Anônimo disse...

Meu amado, e agora?
O que fazer diante de uma situação dessas na igreja?

Sabe, muitas vezes, discordar de uma situação dessas, acabamos invertendo os papeis.

Se eu me manifestar, e vou, contra uma criança pregar em um culto à noite, vou ser tachado de "Não Espiritual" "Cego" e "Imaturo", por não aceitar que uma criança suba num pulpito, no dia de Domingo, Onde Todo o trabalho da Igreja se converge, pois é o Ápice, de todo o esforço da igreja, evangelisticamente falando.

Não seria mais racional, estabelecer um culto infantil, num dia de sabado, ou outro, e assim, realizar tal evento?

Mas não, tem que ser no culto à noite. Não é?

" Afinal, dos tais é o reino dos ceus"

Mc 10:14 Jesus, porém, vendo isto, indignou-se, e disse-lhes: Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus.


Abraços.

Anônimo disse...

Deus usa quem ele quer.
Crianças invés de pregar a palavra deDEUS para bricar!? não concordo não
eu sou um menini de 13 anos sou evangélico e nunca fiquei brincando assim .Eu acho que servo de tem que ser separado se DEUS ele levantou uma criança para ministrar a palavra de DEUS irmão então discuta com jesus
isso ai é diferente por michael jackson vivia nas trevas sendo engando por satanás

Anônimo disse...

o apostulo PAULO ele disse isso em 1coríntios 13:11 quando era menino .Porém quando ele era criança NÃO era servo de DEUS.PORTANTO EU CREIO QUE SE ELE FOSSE SERVO DE DEUS QUANDO ERA CRIANÇA ELE ESTAVA FAZENDO A OBRA DE DEUS AINDA SENDO CRIANÇA.

Anônimo disse...

irmão vc queria que as criançasministrasse a palavara de deus não é?
por que eles estão pregando a palavra de DEUS.É ISSO AI PREGADORES MIRINS NÃO SE CALA NÃO. o inimigo queria calar bartimeu para que ele não alcanssasse vitória quanto mais que mandava ele se calar ela ai que ele clamava