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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A teologia é para todos?

Not to every one, my friends, does it belong to philosophize about God; not to every one; the Subject is not so cheap and low; and I will add, not before every audience, nor at all times, nor on all points; but on certain occasions, and before certain persons, and within certain limits.

Not to all men, because it is permitted only to those who have been examined, and are passed masters in meditation, and who have been previously purified in soul and body, or at the very least are being purified. For the impure to touch the pure is, we may safely say, not safe, just as it is unsafe to fix weak eyes upon the sun's rays. And what is the permitted occasion? It is when we are free from all external defilement or disturbance, and when that which rules within us is not confused with vexatious or erring images; like persons mixing up good writing with bad, or filth with the sweet odours of ointments. For it is necessary to be truly at leisure to know God; and when we can get a convenient season, to discern the straight road of the things divine. And who are the permitted persons? They to whom the subject is of real concern, and not they who make it a matter of pleasant gossip, like any other thing, after the races, or the theatre, or a concert, or a dinner, or still lower employments. To such men as these, idle jests and pretty contradictions about these subjects are a part of their amusement.

O trechinho acima é do Gregório Nazianzeno; estou preguiçoso demais para traduzir agora, e a tradução inglesa é tão mais elegante do que qualquer tradução que eu faça por aqui. Mas eis uma pergunta válida: há qualquer proveito em discutir Deus e as coisas de Deus com pessoas que levam tudo na frivolidade?

E é curioso que Gregório desencoraje os frívolos de especularem a respeito de Deus não para preservar a doutrina correta, mas para proteger os próprios desrespeitosos do poder daquilo que eles tratam tão casualmente. Gregório vira a idéia de Mateus 7:6 de ponta-cabeça: pérolas não devem ser lançadas aos porcos- não porque os porcos as esmagarão com suas patas, mas porque há o risco dos porquinhos engasgarem nelas.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O problema da tipologia

Eu tendo a fugir de interpretações tipológicas de quase toda passagem bíblica, o que ás vezes me rende protestos de alunos e amigos. "Como você pode dizer que (insira nome de personagem vetero-testamentário) não é um tipo de Cristo?" "Mas é claro que (insira figura vetero-testamentária) representa a Igreja!" "Cuidado, a letra mata, mas o espírito vivifica!" Após uma conversa com o Igor, decidi explicar meus motivos para rejeitar este tipo de interpretação.

A tipologia, na teologia, é uma forma de interpretar certas passagens do Antigo Testamento como alusões proféticas a figuras e doutrinas do Novo Testamento. Assim, certos personagens com características que lembram a Jesus são considerados, por alguns, como tipos de Cristo. A ovelha sacrificial é um tipo de Cristo, Jonas, que passou três dias na barriga de um peixe (a barriga do peixe, presumivelmente, sendo um tipo de inferno) é um tipo de Cristo, Josué, por ter o mesmo nome e liderar uma conquista, seria um tipo de Cristo. Outra categoria popular de tipos seria tipos da Igreja; a Sulamita de Cantares é um tipo da Igreja, a arca de Noé é um tipo de Igreja, e Israel é o tipo de Igreja par excellence. Tipos são fáceis de achar no Antigo Testamento. De fato, é praticamente impossível encontrar um personagem sequer de todo o Antigo Testamento que não pode ser visto como tipo de algum elemento da teologia cristã. E é isto que acaba gerando problemas.

Não há como negar, está certo, que os próprios autores néo-testamentários se serviram de tipos; o autor de Hebreus evoca a figura de Melquisedeque para compará-lo a Cristo, Paulo aponta para a Igreja como sendo Isaque, os herdeiros legítimos de Abraão, e o próprio Cristo aponta para a serpente que Moisés ergueu no deserto como sinal passado de sua crucificação. E se eles usaram tipos, não ouso dizer que tipos não existem. Podemos, e devemos, usar os tipos que eles nos deixaram, e estudar os mistérios que eles nos revelaram. Mas não podemos- não ousamos- descobrir tipos no Antigo Testamento se não há menção deles no Novo. Se o fizermos, corremos o risco sério e perigoso de inserirmos nosso significado, nossa leitura, nossas opiniões, sobre um texto que tem nada a ver com o que desejamos ler nele. Sacrificamos a palavra viva e real do Antigo Testamento em favor do catálogo particular de imagens e alusões que desejamos ver estampado sobre suas páginas.

A tipologia é uma caixa de Pandora. Uma vez que você comece a interpretar a Bíblia desta forma, é praticamente impossível traçar um limite de onde parar, e você passa a enxergar Jesus atrás de todo arbusto. Quem começa a ver Jesus em um tipo fica sem recurso, sem defesa, para protestar quando outros vêem Jesus em outro tipo; e logo o Antigo Testamento deixa de existir como registro da história do povo de Deus, e passa a ser um longo prelúdio ao Novo Testamento. O Antigo Testamento deixa de existir em seu próprio direito, e vira apenas um índice ilustrativo dos personagens do Novo Testamento. Todo o vasto épico de Israel se esvai, perde seu poder e seu significado, e perde sua significância histórica, visto que o que antes era tido como história sagrada passa a ser lido como profecia. E profetas, como até Nosso Senhor o confessou, são os mais mal-compreendidos e mal-aceitos dos homens.

O problema com a tipologia é que todos podem enxergar diferentes tipos em diferentes personagens bíblicos. Toda figura do Antigo Testamento pode virar um tipo de Cristo, até mesmo o nome mais obscuro ou o canalha mais baixo. Faraó é um tipo de Cristo, pois os monumentos com sua face cobrem toda a terra. Labão é um tipo de Cristo, pois o povo de Deus o serve. Pelegue é um tipo de Cristo, pois em seus dias a terra foi dividida, e Cristo vem não para trazer paz, mas para dividir com uma espada. Saul é um tipo de Cristo, pois Cristo é um rei forte e poderoso, o primeiro de seu povo. Sansão é um tipo de Cristo, porque os filisteus são- é claro- um tipo de Satanás, e Cristo derrota Satanás. Dalila é um tipo de Cristo, pois seduz até aos mais fortes, e enfraquece os soberbos. Jezabel é um tipo de Cristo, pois é reconhecida pelas palmas das mãos. Eglom é um tipo de Cristo, porque nele há abundância e fartura. Balaão é um tipo de Cristo, porque andou montado sobre uma jumenta. E a jumenta de Balaão, óbviamente, é um tipo da Igreja, porque Cristo está sobre ela.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A ciência faz obsoleto crer em Deus?

Em nossa intimidade, nós modernos continuamos insatisfeitos. Cedo ou tarde encaramos uma crise existencial, e reconhecemos em nossas vidas algo destruído, desordenado, pedindo por redenção. O fato de que possamos reconhecer a desordem, a destruição e o pecado significa que estes ocorrem um uma situação maior de ordem, beleza e bondade, ou em princípio não poderíamos reconhecê-los como tais. Ainda assim a destruição e a desordem são dolorosamente presentes, e a alma humana por sua própria natureza busca algo mais, uma felicidade mais profunda, um bem definitivo. A contemplação da ordem e da beleza na natureza pode nos conduzir a um Algo, ao "deus dos filósofos", mas contemplar nossa incompletude pode nos levar além, a procura de um alguém que é o Bem de nós todos.

A ciência nunca tornará esta procura obsoleta.


(Final da resposta do Cardeal Schönborn, Arcebispo de Viena. Tradução da casa. As outras você pode ler aqui.)