O pastor Ciro Zibordi postou em seu blog que os pais de pregadores mirins devem permitir que suas crianças tenham uma vida normal; isto é, que crianças pregadoras devem ter tempo para serem crianças, não devem ser arrastadas por um circuito de shows/pregações em igrejas. Mas que é perfeitamente ok colocar uma criança no púlpito.
Eu discordo. Esta mania perversa de treinar crianças pregadoras não apenas traumatiza as crianças¹, mas prejudica a própria igreja ao fazer uma criança assumir a maior responsabilidade de todas no culto evangélico: expor a Palavra de Deus. É uma banalização horripilante daquilo que nosso culto tem mais precioso.
Mas como uma afirmação tão auto-evidente e óbvia como esta ainda será disputada por algumas pessoas, aí vão quatro motivos pelos quais é uma péssima idéia colocar crianças no púlpito.
1) A pregação requer exegese do texto bíblico. Pregar não significa gritar palavras de ordem para uma multidão. Pregar não significa esbravejar contra a igreja por ela não ser pentecostal o suficiente², ou santa o suficiente. Pregar é expor a palavra de Deus, é pegar um texto bíblico e tentar trazer o significado dele para seus ouvintes. Exegese requer paciência, disciplina, leitura cuidadosa dos textos. Requer atenção para o contexto histórico e cultural de cada passagem, atenção para os temas teológicos envolvidos, atenção para as formas em que cada texto é usado em outras passagens. Requer atenção para possíveis erros de interpretação, atenção para as formas em que cada texto tem sido interpretado em quase vinte séculos de tradição cristã. É uma atividade demorada, complexa, e intelectualmente exigente. Existem muitos adultos (e adultos piedosos, santos, e inteligentes) que não possuem o cuidado, a paciência ou a capacidade que a exegese requer; é impossível esperar isto de uma criança. Uma criança pode repetir uma história bíblica; ela pode gritar no microfone as ordens que Paulo dá em suas epístolas; mas ela não tem a capacidade intelectual de extrair do próprio texto sua mensagem, e de relacionar a mensagem deste texto com a totalidade da doutrina cristã e com a vida dos ouvintes.
2) A pregação requer a organização das idéias do texto num discurso inteligível e coerente. Proponho um experimento aos defensores dos pregadores mirins: peguem uma criança de oito anos, e façam-a ler algum texto da antiguidade pagã; pode ser o Épico de Gilgamesh ou a Ilíada, ou qualquer outro. Agora peça-a para instruir um grupo de adultos (que todos leram estes textos antigos há anos, alguns já mais de vinte vezes) a seu respeito. Você acha que esta criança faria um trabalho minimamente competente em expor o significado deste texto pagão? Então como você espera que ela faça o mesmo com o texto que é, em nossa fé, a revelação do próprio Deus? Mesmo se admitirmos que ela tem a capacidade de entender plenamente o que foi escrito pelos autores bíblicos (e eu já disputei esta idéia no ponto anterior), você realmente acha que a criança tem capacidade para organizar as idéias do texto, e educar um grupo de adultos quanto ao seu significado e aplicação para hoje? Você já aprendeu algo de um sermão pregado por uma criança? E olhe que na maioria dos casos a organização das idéias do texto para o formato do sermão nem é feita pela criança, e sim seus pais. Os pais da criança infeliz preparam um sermão, e então fazem a criança repetí-lo. Isto não é pregação. Se isto for pregação, então um papagaio treinado para repetir as mensagens de Spurgeon³ também é um pregador. A acusação do Pr. Zibordi, que existem algumas crianças que são somente pequenos animadores de auditório, ignora o problema real: que toda criança pregadora é, de uma forma ou outra, uma pequena animadora de auditório. Algumas animam o auditório gritando espalhafatosamente; outras pela repetição mecânica de um sermão ensaiado com os pais; mas nenhuma criança realmente pode pregar o evangelho.
3) A pregação requer experiência de vida. Eis algo tão óbvio que tenho vergonha até de escrevê-lo: a aplicação de um texto para as realidades e necessidades da congregação requer uma compreensão básica das realidades e necessidades da congregação! Uma vez que o texto bíblico foi compreendido, e sua mensagem foi comunicada, como uma criança de nove anos poderia fazer esta mensagem aplicável aos seus ouvintes? Como pregar uma palavra de consolo quando a sua maior tristeza na vida foi ser proibida de ver o show dos Jonas Brothers? Como pregar sobre a alegria no Senhor quando sua única compreensão de alegria é em termos de brinquedos e doces? Uma criança não entende (ainda) as dificuldades diárias que 99% das pessoas experimentam. Uma criança nunca sentiu dúvida em seu coração; nunca soluçou uma oração desesperada por uma cura que nunca veio; nunca maravilhou-se da graça que perdoa pecados porque ela própria não entende o quanto é pecadora, e o quão desesperadamente necessitamos da misericórdia de Deus. Não estou dizendo que apenas velhinhos que já provaram de tudo da vida podem pregar; não estou dizendo que homens solteiros não podem pregar a homens casados, ou que é proibido pregar em funerais até que alguém de sua família morra. Mas vamos todos admitir que a autoridade moral de um pregador é oca até que ele tenha um reservatório de experiências pessoais ao qual ele pode voltar para extrair uma aplicação ao texto. Este é um motivo pelo qual pregadores mirins são ridiculamente impiedosos: gritam com os irmãos; exigem que as pessoas dêem glória a Deus por alguma promessa vazia, conjurada entre um segundo e outro de uma passagem mal interpretada; urram que a vida cristã consiste apenas de vitórias; ridicularizam os fracos, desafiam impudentemente os calados. É muito fácil exultar na idéia de que a vida do crente é uma de ininterruptas conquistas espirituais, milagres e bençãos quando só se provou uma única gota (se tanto) do cálice de tentações, decepções e amarguras que cada um de nós precisa tomar até o fim.
4) A pregação requer uma vida com o Espírito Santo. Não estou falando de dons espirituais ou de fenômenos pentecostais; estou falando de santidade, de vencer diariamente a tentação diária, de amar a Deus mais do que a si mesmo. Estou falando de maturidade espiritual, de intimidade com o Senhor, de uma vida compromissada com Jesus Cristo e sua Igreja. O pregador não é apenas um expositor da Palavra; ele é um homem santo, um servo do Senhor, um emissário de Deus. O púlpito não é, e não deveria ser, um espaço democrático, mas o lugar onde uma pessoa chamada por Deus desempenha uma função sagrada. E isto requer não apenas o preparo e a experiência de vida que mencionei acima, mas experiências com Deus- de sua misericórdia, de seu poder salvador, da beleza do Senhor- que vão além de orar ao papai do céu toda noite. Não estou dizendo que crianças não podem amar a Deus; mas maturidade espiritual requer também maturidade intelectual e emocional. Em I Co. 3, Paulo criticou os coríntios por serem criancinhas em Cristo; o que ele diria se soubesse que fizemos de criancinhas de verdade os pregadores daquilo que ele, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu? Quando se tornou permissível que os membros mais imaturos da igreja assumissem a autoridade do púlpito?
______________________________
¹ E arruina a fé delas no processo. Ou ninguém lembra de Marjoe Gortner?
² Uma das marcas do pregador canalha: exigir que seu público a aplauda e dê glória a Deus pelo que ele acabou de dizer. E minha pentecostalidade é medida pela quantidade de améns e aleluias que eu grito durante uma pregação?
³ É um papagaio reformado.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Os Horrores da Cultura Pentecostal: Pregadores Mirins
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Agostinho: Mateus 5:16
Let your light, says He, so shine before men, that they may see your good works, and glorify your Father which is in heaven. If He had merely said, Let your light so shine before men, that they may see your good works, He would seem to have fixed an end in the praises of men, which hypocrites seek, and those who canvass for honours and covet glory of the emptiest kind. Against such parties it is said, If I yet pleased men, I should not be the servant of Christ; and, by the prophet, They who please men are put to shame, because God has despised them; and again, God has broken the bones of those who please men; and again the apostle, Let us not be desirous of vainglory; and still another time, But let every man prove his own work, and then shall he have rejoicing in himself alone, and not in another. Hence our Lord has not said merely, that they may see your good works, but has added, and glorify your Father who is in heaven: so that the mere fact that a man by means of good works pleases men, does not there set it up as an end that he should please men; but let him subordinate this to the praise of God, and for this reason please men, that God may be glorified in him. For this is expedient for them who offer praise, that they should honour, not man, but God; as our Lord showed in the case of the man who was carried, where, on the paralytic being healed, the multitude, marvelling at His powers, as it is written in the Gospel, feared and glorified God, which had given such power unto men. And His imitator, the Apostle Paul, says, But they had heard only, that he which persecuted us in times past now preaches the faith which once he destroyed; and they glorified God in me.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Terra santa
Uma igreja não é um prédio; é a comunidade, são as pessoas que a compõem. Sendo assim, as pessoas não vão para a igreja aos domingos; elas reunem a igreja aos domingos. Embora a igreja sempre exista, mesmo se os membros da igreja estão isolados uns dos outros, o prédio onde ocorrem cultos, vigílias, batismos, etc só existe como "igreja" quando a igreja (sem aspas) está reunida dentro dela.
É por isso que todo lugar pode se tornar uma igreja. Um quarto de hospital pode ser um templo. A mesa da cozinha onde partimos o pão torrado pode ser também o altar em que partilhamos o corpo de Cristo. O místico se lança de cara ao chão da igreja, esparrama-se para gemer e orar; e eu faço o mesmo, caio sobre minha cama e imploro a Deus que tenha misericórdia de mim por apenas mais um dia. Onde dois ou três estão reunidos em seu nome, lá está Jesus, Deus sobre nós e entre nós e dentro de nós. Eu e você e você reunidos, e agora somos a casa de Deus, e somos da casa de Deus, e entramos na casa de Deus. E Deus, anfitrião cuidadoso que é, pede que removamos os sapatos antes de pisar no chão limpo. Tira as sandálias dos teus pés, pois o lugar em que tu estás é terra santa.
E é por isso que não entendo (aliás, entendo, mas não concordo com) a indignação que algumas pessoas tem com atividades inócuas que ocorrem dentro da "igreja", o prédio onde a igreja se reúne. Fizeram uma festa na igreja! Abriram uma banquinha pra vender salgadinho na igreja! Os jovens vão brincar de luta livre na igreja! Vi um casal se beijando na igreja! Vi o irmão entrar de bermuda na igreja!
E daí? Estão interrompendo um culto, um círculo de oração, qualquer atividade na qual a igreja se reúne como igreja? Não? Então deixem-os em paz. Não existe irreverência para com um prédio- o prédio não é solo sagrado- mas apenas para com a presença de Deus entre aqueles que se reúnem em seu nome. A "igreja" sem a igreja é apenas um salão; então deixe a igreja fazer o que bem entender com ela.
É por isso que todo lugar pode se tornar uma igreja. Um quarto de hospital pode ser um templo. A mesa da cozinha onde partimos o pão torrado pode ser também o altar em que partilhamos o corpo de Cristo. O místico se lança de cara ao chão da igreja, esparrama-se para gemer e orar; e eu faço o mesmo, caio sobre minha cama e imploro a Deus que tenha misericórdia de mim por apenas mais um dia. Onde dois ou três estão reunidos em seu nome, lá está Jesus, Deus sobre nós e entre nós e dentro de nós. Eu e você e você reunidos, e agora somos a casa de Deus, e somos da casa de Deus, e entramos na casa de Deus. E Deus, anfitrião cuidadoso que é, pede que removamos os sapatos antes de pisar no chão limpo. Tira as sandálias dos teus pés, pois o lugar em que tu estás é terra santa.
E é por isso que não entendo (aliás, entendo, mas não concordo com) a indignação que algumas pessoas tem com atividades inócuas que ocorrem dentro da "igreja", o prédio onde a igreja se reúne. Fizeram uma festa na igreja! Abriram uma banquinha pra vender salgadinho na igreja! Os jovens vão brincar de luta livre na igreja! Vi um casal se beijando na igreja! Vi o irmão entrar de bermuda na igreja!
E daí? Estão interrompendo um culto, um círculo de oração, qualquer atividade na qual a igreja se reúne como igreja? Não? Então deixem-os em paz. Não existe irreverência para com um prédio- o prédio não é solo sagrado- mas apenas para com a presença de Deus entre aqueles que se reúnem em seu nome. A "igreja" sem a igreja é apenas um salão; então deixe a igreja fazer o que bem entender com ela.
sábado, 19 de setembro de 2009
The Martyrdom of Polycarp
They did not nail him then, but simply bound him. And he, placing his hands behind him, and being bound like a distinguished ram taken out of a great flock for sacrifice, and prepared to be an acceptable burnt-offering unto God, looked up to heaven, and said,
"O Lord God Almighty, the Father of your beloved and blessed Son Jesus Christ, by whom we have received the knowledge of You, the God of angels and powers, and of every creature, and of the whole race of the righteous who live before you, I give You thanks that You have counted me, worthy of this day and this hour, that I should have a part in the number of Your martyrs, in the cup of your Christ, to the resurrection of eternal life, both of soul and body, through the incorruption imparted by the Holy Ghost. Among whom may I be accepted this day before You as a fat and acceptable sacrifice, according as You, the ever-truthful God, hast foreordained, hast revealed beforehand to me, and now hast fulfilled. Wherefore also I praise You for all things, I bless You, I glorify You, along with the everlasting and heavenly Jesus Christ, Your beloved Son, with whom, to You, and the Holy Ghost, be glory both now and to all coming ages. Amen."
When he had pronounced this amen, and so finished his prayer, those who were appointed for the purpose kindled the fire. And as the flame blazed forth in great fury, we, to whom it was given to witness it, beheld a great miracle, and have been preserved that we might report to others what then took place. For the fire, shaping itself into the form of an arch, like the sail of a ship when filled with the wind, encompassed as by a circle the body of the martyr. And he appeared within not like flesh which is burnt, but as bread that is baked, or as gold and silver glowing in a furnace. Moreover, we perceived such a sweet odour coming from the pile, as if frankincense or some such precious spices had been smoking there.
"O Lord God Almighty, the Father of your beloved and blessed Son Jesus Christ, by whom we have received the knowledge of You, the God of angels and powers, and of every creature, and of the whole race of the righteous who live before you, I give You thanks that You have counted me, worthy of this day and this hour, that I should have a part in the number of Your martyrs, in the cup of your Christ, to the resurrection of eternal life, both of soul and body, through the incorruption imparted by the Holy Ghost. Among whom may I be accepted this day before You as a fat and acceptable sacrifice, according as You, the ever-truthful God, hast foreordained, hast revealed beforehand to me, and now hast fulfilled. Wherefore also I praise You for all things, I bless You, I glorify You, along with the everlasting and heavenly Jesus Christ, Your beloved Son, with whom, to You, and the Holy Ghost, be glory both now and to all coming ages. Amen."
When he had pronounced this amen, and so finished his prayer, those who were appointed for the purpose kindled the fire. And as the flame blazed forth in great fury, we, to whom it was given to witness it, beheld a great miracle, and have been preserved that we might report to others what then took place. For the fire, shaping itself into the form of an arch, like the sail of a ship when filled with the wind, encompassed as by a circle the body of the martyr. And he appeared within not like flesh which is burnt, but as bread that is baked, or as gold and silver glowing in a furnace. Moreover, we perceived such a sweet odour coming from the pile, as if frankincense or some such precious spices had been smoking there.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Da Vergonha de Ser Evangélico
Este post do Augustus Nicodemus e uma conversa de ontem com a Laila me fizeram pensar das vezes em que já senti vergonha de ser evangélico. São tantas coisas que provocam esse sentimento. As calhordices dos bispos e apóstolos cujas ovelhas existem apenas para a tosqueia. O anti-intelectualismo que glorifica a burrice barulhenta. Os evangelistas e cantores cujo status de superstar dentro das igrejas denuncia nossa ignorância e vulgaridade. A chatice de nossa música, nossos romances, nossos filmes, que tão raramente demonstram qualquer vestígio de brilho ou originalidade, mas são apenas cópias de cópias de arte secular- e má arte secular. A banda que é o Blink-182 evangélico; o Calcinha Preta gospel; os funkeiros da fé.
O problema é que mesmo enquanto enrubescemos de vergonha com as safadezas e cretinices do mundo evangélico, estamos engolindo a mentira de que ser evangélico é isso que os apóstolos e as bispas e os baderneiros representam. E não é. O problema é que nós deixamos os falsos pastores e os vendedores da fé se posicionarem na sociedade como os porta-vozes do mundo evangélico. Nós- com nossa ausência, nossa apatia, nossa falta de vontade de colocar a cara para bater- deixamos que a moeda falsa passasse por verdadeira, e que essa corja desonesta se fizesse o rosto do evangelicalismo brasileiro.
Daí vem os iluminados, os sábios entre nós que, no desespero de serem confundidos com a turba burra, já vão esclarecendo que não são evangélicos. Esses batistas, assembleianos, presbiterianos, metodistas tropeçando um sobre o outro na pressa de dizer que evangélicos são os outros. Eu não sou evangélico, sou seguidor de Cristo. Eu não sou evangélico, sou reformado. Eu não sou evangélico, sou protestante. Eu não sou evangélico, sou cristão. Já abandonamos o termo "crente"- qual foi a última vez que você ouviu alguém dizer, em público, "Eu sou crente"?- e agora estamos abandonando o termo evangélico, para não sermos jogados no mesmo balaio que os neopentecostais. Trememos de medo da reprovação alheia, dos olhares de zombaria, das perguntas do tipo "Mas você não acredita realmente que _______, acredita?"
É um ciclo. A liderança cínica de algumas igrejas propaga algum absurdo, nós escondemos num cantinho com vergonha, disfarçamos que não somos evangélicos- e você não me engana, seu batista que acha que beber cerveja é pecado, você É evangélico- e os charlatães consolidam-se como as vozes mais conhecidas (e logo, se não tomarmos cuidado, serão as únicas vozes) do evangelicalismo no discurso público.
Já chega. Estamos cansados de sobrar pra nós- crentes sérios, tolerantes, amantes de Deus, servos da Palavra- quando esses ladrões aprontam? Então vamos abrir a boca. Vamos confrontar essas pessoas, vamos expor seus enganos, vamos mostrar que ser evangélico não significa ser um idiota. Vamos dar uma surra de Bíblia nesse povo. Vamos mostrar que arte crente não precisa ser- ora raios, nunca deveria ter sido- derivativa. Vamos boicotar a marcha pra Jesus.
E vamos nos chamar, sim, de evangélicos. De crentes. E dessa vez, sem vergonha.
O problema é que mesmo enquanto enrubescemos de vergonha com as safadezas e cretinices do mundo evangélico, estamos engolindo a mentira de que ser evangélico é isso que os apóstolos e as bispas e os baderneiros representam. E não é. O problema é que nós deixamos os falsos pastores e os vendedores da fé se posicionarem na sociedade como os porta-vozes do mundo evangélico. Nós- com nossa ausência, nossa apatia, nossa falta de vontade de colocar a cara para bater- deixamos que a moeda falsa passasse por verdadeira, e que essa corja desonesta se fizesse o rosto do evangelicalismo brasileiro.
Daí vem os iluminados, os sábios entre nós que, no desespero de serem confundidos com a turba burra, já vão esclarecendo que não são evangélicos. Esses batistas, assembleianos, presbiterianos, metodistas tropeçando um sobre o outro na pressa de dizer que evangélicos são os outros. Eu não sou evangélico, sou seguidor de Cristo. Eu não sou evangélico, sou reformado. Eu não sou evangélico, sou protestante. Eu não sou evangélico, sou cristão. Já abandonamos o termo "crente"- qual foi a última vez que você ouviu alguém dizer, em público, "Eu sou crente"?- e agora estamos abandonando o termo evangélico, para não sermos jogados no mesmo balaio que os neopentecostais. Trememos de medo da reprovação alheia, dos olhares de zombaria, das perguntas do tipo "Mas você não acredita realmente que _______, acredita?"
É um ciclo. A liderança cínica de algumas igrejas propaga algum absurdo, nós escondemos num cantinho com vergonha, disfarçamos que não somos evangélicos- e você não me engana, seu batista que acha que beber cerveja é pecado, você É evangélico- e os charlatães consolidam-se como as vozes mais conhecidas (e logo, se não tomarmos cuidado, serão as únicas vozes) do evangelicalismo no discurso público.
Já chega. Estamos cansados de sobrar pra nós- crentes sérios, tolerantes, amantes de Deus, servos da Palavra- quando esses ladrões aprontam? Então vamos abrir a boca. Vamos confrontar essas pessoas, vamos expor seus enganos, vamos mostrar que ser evangélico não significa ser um idiota. Vamos dar uma surra de Bíblia nesse povo. Vamos mostrar que arte crente não precisa ser- ora raios, nunca deveria ter sido- derivativa. Vamos boicotar a marcha pra Jesus.
E vamos nos chamar, sim, de evangélicos. De crentes. E dessa vez, sem vergonha.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Deuses que nunca conheceram
Fiquei surpreso de perceber, ao ler o livro de Jeremias imediatamente após ler o livro de Isaías, o quanto mais perverso e cruel se tornou o povo de Judá durante a vida de Jeremias. Os pecados da elite política, econômica e sacerdotal de Judá durante o ministério de Isaías (cujas acusações poderiam ser resumidas como "Vocês ignoram os pobres! Abandonaram ao Senhor! São gananciosos e hipócritas! Não me consultaram quanto a decisões de política externa! E bebem demais!") são quase triviais quando comparados com os sacrifícios humanos e a pura audácia blasfema da geração posterior, que ergueu altares aos deuses cananeus no templo do Senhor.
Nas palavras de Jeremias, relatando a mensagem de Deus, "Para minha ira e para meu furor me tem sido esta cidade, desde o dia em que a edificaram até ao dia de hoje, para que a tirasse da minha presença, por todas as maldades que os filhos de Israel e os filhos de Judá fizeram, para me provocarem á ira; eles e os seus reis, os seus príncipes, os seus sacerdotes e os seus profetas, como também os homens de Judá e os moradores de Jerusalém. E viraram para mim as costas e não o rosto; ainda que eu os ensinava, madrugando e ensinando-os, eles não deram ouvidos para receberem ensino. Antes, puseram seus abominações na casa que se chama pelo meu nome, para a profanarem. E edificaram os altos de Baal, que estão no vale do filho de Hinom, para fazerem passar seus filhos e suas filhas pelo fogo a Moloque, o que nunca lhes ordenei, nem subiu ao meu coração que fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá." (Jer. 32:31-35)
As palavras são chocantes se cremos que vem de Deus. Vemos o Deus onisciente dizendo que nunca imaginou, que nunca sequer lhe ocorreu, que "nem subiu ao meu coração" que o povo chegaria a sacrificar suas próprias crianças. Deus rejeitando seu próprio templo, chamando-o friamente de "a casa que se chama pelo meu nome". Enquanto a maioria das acusações em Isaías eram feitas contra os que estavam no poder, em Jeremias todo o povo está sob condenação, por pecados literalmente inimagináveis para gerações anteriores. "Porquanto me deixaram, e profanaram este lugar, e nele queimaram incenso a outros deuses, que nunca conheceram, nem eles, nem seus pais, nem os reis de Judá; e encheram este lugar de sangue de inocentes."
O que torna esta situação especialmente espantosa é seu contexto; a geração de Jeremias era a primeira em duas gerações a ter um rei que banisse a religião cananéia. Josias (cujo avô Manassés, roga a tradição, serrou o profeta Isaías ao meio) liderou uma reforma incrível do culto a Javé, destruindo os altares de Baal e restaurando o Templo. Quando Deus diz que o povo oferecia incenso e crianças vivas a deuses "que nunca conheceram", Ele não está exagerando; está notando que aquela geração tinha sido criada num contexto religioso incontaminado pelas barbaridades do culto cananeu. O que me deixa assustado.
Isso me deixa assustado porque não consigo deixar de ver uma relação causal entre o avivamento do culto a Deus sob Josias e a profundeza redobrada de paganismo e holocausto humano ao qual seus descendentes mergulharam. Quem sabe esse gusto com que Judá buscou deuses como Moloque se devia ás conversões forçadas de gerações anteriores, que talvez não foram inteiramente sinceras. Quem sabe C.S. Lewis estava certo quando disse que os grandes pecadores são feitos do mesmo material que os grandes santos, e que portanto a geração criada na maior santidade em sua juventude necessariamente se tornaria legendariamente depravada caso se apostatasse. O próprio Jesus descreve um princípio parecido em Lucas 11:24-26, dizendo que quando um espírito imundo que fora anteriormente expulso volta para "visitar" seu velho hóspede e encontra-o preparado para ele ("varrida e adornada", como se esperando sua chegada) ele volta e traz consigo mais sete espíritos piores do que ele; "e o último estado daquele homem é pior do que o primeiro."
Nós evangélicos somos orgulhosos de nosso crescimento numérico. Gabamo-nos do avivamento que infla nossas igrejas, e declaramos altamente que "O Brasil é de Jesus!" Muito bem, realmente é boa coisa que o evangelho tenha sido pregado em tantos lugares, para pessoas que nunca o consideraram sériamente antes. Mas tenho medo, medo real, que se não solidificarmos nossas igrejas, se não investirmos em educação cristã para leigos nas igrejas, se não consolidarmos nossas conquistas neste país- enfim, se não edificarmos os que já estão na igreja ao invés de apenas buscar novos convertidos- sinto que nossas vitórias terão sido em vão. Esta geração evangélica é maciçamente uma de convertidos; se não tivermos cuidado, a próxima será uma apenas de nascidos-na-igreja; e a próxima depois será uma de apóstatas e céticos. Ou nos preocupamos hoje em consolidar os que já estão na igreja-sem negligenciar o evangelismo, é claro- ou começamos quando for tarde demais; e já teremos perdido uma geração para o mundo. Se você acha a cultura brasileira ímpia e carnal hoje, imagine uma cultura brasileira pós-cristã.
A geração de Isaías, neta e bisneta de pagãos e falsos adoradores, foi avarenta e indulgente consigo mesma. A geração de Jeremias, criada no Templo ouvindo a Lei, foi espetacularmente cruel e perversa. Os demônios do povo voltaram sete vezes mais fortes após sua apostasia. Que isto nos sirva de aviso e lição.
Nas palavras de Jeremias, relatando a mensagem de Deus, "Para minha ira e para meu furor me tem sido esta cidade, desde o dia em que a edificaram até ao dia de hoje, para que a tirasse da minha presença, por todas as maldades que os filhos de Israel e os filhos de Judá fizeram, para me provocarem á ira; eles e os seus reis, os seus príncipes, os seus sacerdotes e os seus profetas, como também os homens de Judá e os moradores de Jerusalém. E viraram para mim as costas e não o rosto; ainda que eu os ensinava, madrugando e ensinando-os, eles não deram ouvidos para receberem ensino. Antes, puseram seus abominações na casa que se chama pelo meu nome, para a profanarem. E edificaram os altos de Baal, que estão no vale do filho de Hinom, para fazerem passar seus filhos e suas filhas pelo fogo a Moloque, o que nunca lhes ordenei, nem subiu ao meu coração que fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá." (Jer. 32:31-35)
As palavras são chocantes se cremos que vem de Deus. Vemos o Deus onisciente dizendo que nunca imaginou, que nunca sequer lhe ocorreu, que "nem subiu ao meu coração" que o povo chegaria a sacrificar suas próprias crianças. Deus rejeitando seu próprio templo, chamando-o friamente de "a casa que se chama pelo meu nome". Enquanto a maioria das acusações em Isaías eram feitas contra os que estavam no poder, em Jeremias todo o povo está sob condenação, por pecados literalmente inimagináveis para gerações anteriores. "Porquanto me deixaram, e profanaram este lugar, e nele queimaram incenso a outros deuses, que nunca conheceram, nem eles, nem seus pais, nem os reis de Judá; e encheram este lugar de sangue de inocentes."
O que torna esta situação especialmente espantosa é seu contexto; a geração de Jeremias era a primeira em duas gerações a ter um rei que banisse a religião cananéia. Josias (cujo avô Manassés, roga a tradição, serrou o profeta Isaías ao meio) liderou uma reforma incrível do culto a Javé, destruindo os altares de Baal e restaurando o Templo. Quando Deus diz que o povo oferecia incenso e crianças vivas a deuses "que nunca conheceram", Ele não está exagerando; está notando que aquela geração tinha sido criada num contexto religioso incontaminado pelas barbaridades do culto cananeu. O que me deixa assustado.
Isso me deixa assustado porque não consigo deixar de ver uma relação causal entre o avivamento do culto a Deus sob Josias e a profundeza redobrada de paganismo e holocausto humano ao qual seus descendentes mergulharam. Quem sabe esse gusto com que Judá buscou deuses como Moloque se devia ás conversões forçadas de gerações anteriores, que talvez não foram inteiramente sinceras. Quem sabe C.S. Lewis estava certo quando disse que os grandes pecadores são feitos do mesmo material que os grandes santos, e que portanto a geração criada na maior santidade em sua juventude necessariamente se tornaria legendariamente depravada caso se apostatasse. O próprio Jesus descreve um princípio parecido em Lucas 11:24-26, dizendo que quando um espírito imundo que fora anteriormente expulso volta para "visitar" seu velho hóspede e encontra-o preparado para ele ("varrida e adornada", como se esperando sua chegada) ele volta e traz consigo mais sete espíritos piores do que ele; "e o último estado daquele homem é pior do que o primeiro."
Nós evangélicos somos orgulhosos de nosso crescimento numérico. Gabamo-nos do avivamento que infla nossas igrejas, e declaramos altamente que "O Brasil é de Jesus!" Muito bem, realmente é boa coisa que o evangelho tenha sido pregado em tantos lugares, para pessoas que nunca o consideraram sériamente antes. Mas tenho medo, medo real, que se não solidificarmos nossas igrejas, se não investirmos em educação cristã para leigos nas igrejas, se não consolidarmos nossas conquistas neste país- enfim, se não edificarmos os que já estão na igreja ao invés de apenas buscar novos convertidos- sinto que nossas vitórias terão sido em vão. Esta geração evangélica é maciçamente uma de convertidos; se não tivermos cuidado, a próxima será uma apenas de nascidos-na-igreja; e a próxima depois será uma de apóstatas e céticos. Ou nos preocupamos hoje em consolidar os que já estão na igreja-sem negligenciar o evangelismo, é claro- ou começamos quando for tarde demais; e já teremos perdido uma geração para o mundo. Se você acha a cultura brasileira ímpia e carnal hoje, imagine uma cultura brasileira pós-cristã.
A geração de Isaías, neta e bisneta de pagãos e falsos adoradores, foi avarenta e indulgente consigo mesma. A geração de Jeremias, criada no Templo ouvindo a Lei, foi espetacularmente cruel e perversa. Os demônios do povo voltaram sete vezes mais fortes após sua apostasia. Que isto nos sirva de aviso e lição.
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domingo, 21 de setembro de 2008
Take that, Bento XVI.
Existe um acordo tácito entre protestantes e católicos que crêem que o outro lado não está indo (necessariamente) para o inferno: que o outro lado é salvo apesar de suas heresias, baseado naquilo que tem em comum com nosso lado (você sabe, o nosso lado, o do cristianismo verdadeiro). Assim, o Igor diz que sou salvo porque meu batismo foi, de certo modo, válido, e que sou membro da Madre Igreja mesmo sem reconhecê-la como Madre e just barely como Igreja. Assim eu digo que Igor foi salvo pela graça de Deus operando em seu espírito mediante a fé, e isto é provado por sua submissão ao Senhor. Cada um considera o outro um enganado, mas não um apóstata; um herége, certo, mas um irmão herége. Neste cessar-fogo surgem momentos de apreciação verdadeira pelas qualidades do outro lado, e admiração até pelas virtudes gastas em vão. Quando o rei Alfred lança seu tesouro aos pés da aparição de Maria e implora a ela por respostas ("Mother of God" the wanderer said, "I am but a common king, and not will I ask what saints may ask, to see a secret thing."), a cena é comovente não apenas por causa das circunstâncias desesperadas e urgentes de Alfred, mas por sua devoção real á Mãe de Jesus.
E é por isso que fiquei tão espantado com minha reação a um DVD de um pastor assembleiano que se converteu ao catolicismo. O homem (não direi seu nome aqui) listou como principal motivo de sua adesão ao catolicismo o culto da Virgem, e isto (eu prometo) não me fez automaticamente hostil. Mas ao relatar com sua vozinha ovina sua conversão- sua visão num sonho de uma mulher que, acredita ele, é Santa Isabel; sua defesa de imagens; sua adulação contínua de Maria e do papa; sua invocação de anjos (que quando ocorre nas igrejas pentecostais é misticismo e bobagem, mas nas igrejas católicas é diferente, é chamar São Miguel e São Gabriel); sua indignação e surpresa de que a Assembléia de Deus não aceitaria em sua convenção um homem que cultuasse santos; tudo isto me irritou bastante, e confesso que fiquei surpreso com isso. Não justifico minha irritação, mas aqui não estava um católico que, apesar de seu catolicismo conhecia a fé verdadeira; aqui estava um homem que conhecia a fé verdadeira, e então mergulhou de cabeça em tudo aquilo que a reforma deixou para trás, abandonando sua fé nas Escrituras para confiar na voz de homens. Eu senti uma indignação não apenas doutrinária, mas cultural, emocional, pessoal. Se você é ateu ou agnóstico, imagine sua reação perante um físico que abandonou sua confiança na ciência e se tornou mórmon após ver uma imagem de Jesus numa torrada.
E entendi, pela primeira vez, a raiva que alguns católicos tem contra as igrejas protestantes. Desde que nasci as Igrejas evangélicas só fazem crescer, com novos-convertidos oriundos, na maioria dos casos, da igreja Católica; e descobri que ver a defecção de um do seu lado é um espetáculo amargo. Mas ainda darei um troco nos católicos; vou converter o Igor ás Assembléias de Deus. Take that, Bento XVI.
E é por isso que fiquei tão espantado com minha reação a um DVD de um pastor assembleiano que se converteu ao catolicismo. O homem (não direi seu nome aqui) listou como principal motivo de sua adesão ao catolicismo o culto da Virgem, e isto (eu prometo) não me fez automaticamente hostil. Mas ao relatar com sua vozinha ovina sua conversão- sua visão num sonho de uma mulher que, acredita ele, é Santa Isabel; sua defesa de imagens; sua adulação contínua de Maria e do papa; sua invocação de anjos (que quando ocorre nas igrejas pentecostais é misticismo e bobagem, mas nas igrejas católicas é diferente, é chamar São Miguel e São Gabriel); sua indignação e surpresa de que a Assembléia de Deus não aceitaria em sua convenção um homem que cultuasse santos; tudo isto me irritou bastante, e confesso que fiquei surpreso com isso. Não justifico minha irritação, mas aqui não estava um católico que, apesar de seu catolicismo conhecia a fé verdadeira; aqui estava um homem que conhecia a fé verdadeira, e então mergulhou de cabeça em tudo aquilo que a reforma deixou para trás, abandonando sua fé nas Escrituras para confiar na voz de homens. Eu senti uma indignação não apenas doutrinária, mas cultural, emocional, pessoal. Se você é ateu ou agnóstico, imagine sua reação perante um físico que abandonou sua confiança na ciência e se tornou mórmon após ver uma imagem de Jesus numa torrada.
E entendi, pela primeira vez, a raiva que alguns católicos tem contra as igrejas protestantes. Desde que nasci as Igrejas evangélicas só fazem crescer, com novos-convertidos oriundos, na maioria dos casos, da igreja Católica; e descobri que ver a defecção de um do seu lado é um espetáculo amargo. Mas ainda darei um troco nos católicos; vou converter o Igor ás Assembléias de Deus. Take that, Bento XVI.
sábado, 20 de setembro de 2008
Seppuku Espiritual
É curioso como, especialmente com a moda da batalha espiritual, o conceito da palavra de Deus como espada tem ganho popularidade. Em Efésios 6:17 Paulo chama seus leitores a tomarem "A espada do Espírito, que é a palavra de Deus", então a idéia da Palavra como um instrumento, como uma arma empregada contra o engano, é realmente válida. O problema é que esta passagem isolada não é o único uso deste conceito que encontramos na Bíblia. A idéia da Palavra cortante já existia bem antes de Paulo usá-la; de fato, bem antes da palavra em questão ser, necessariamente, a Palavra de Deus.
Ao falar de um companheiro traiçoeiro, Salmo 55:21 diz, em típico modo paralelístico, "Sua fala é macia como a manteiga, mas guerra está em seu coração; suas palavras são mais brandas que o azeite, todavia são espadas nuas." Esta imagem é repetida pelos salmos e em Provérbios: as palavras do do enganador, do blasfemador e do tolo são descritas como lâminas cortantes. "Eis que eles dão gritos com a boca; espadas estão em seus lábios." "Eles afiaram a sua língua como espadas; e armaram, por suas flechas, palavras amargas." "Há alguns cujas palavras são como pontas de espada, mas a língua dos sábios é saúde." Em todas estas passagens a palavra-como-espada é a palavra de engano e de escárnio; o rumor divisivo, o insulto humilhante, a mentira agradável aos ouvidos mas duplamente destrutiva. Segundo Tiago, a língua desregrada "contamina todo o corpo, inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno."
A palavra de Deus, por outro lado, é descrita desde o início como possessora de poderes criativos; Deus cria o universo ex nihilo com sua palavra, e sustenta toda a criação "pela palavra de seu poder." E como Pedro explica, este poder criativo da palavra opera na própria salvação, "Pois fostes de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela Palavra de Deus, viva e que permance para sempre." Agora, o homem é incapaz de realmente criar ou destruir qualquer coisa, e pode apenas usar suas palavras (e mais qualquer habilidade que ele possua)para manipular seu ambiente; suas palavras podem apenas enganar ou consolar. Onde a palavra do homem é tentativa, porém, a palavra de Deus é absolutamente, esmagadoramente eficaz, e cumpre seu propósito não por seu mérito em convencer alguém de alguma proposição, mas simplesmente por ser a expressão da vontade de Deus. Assim, se a Palavra de Deus tem poder irrestrito para criar, seu poder destrutivo é de igual maneira ilimitado. O Servo do Senhor tem uma boca "como uma espada afiada". O Apocalipse de João diz que Jesus, vindo em poder e juízo, "segurava sete estrelas em sua mão direita, e da sua boca saía uma aguda espada de dois gumes; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandesce." "Arrepende-te, pois! Ou em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca." "E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com cetro de ferro, e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-poderoso." "E os demais foram mortos com a espada que saía da boca do que estava assentado sobre o cavalo, e todas as aves se fartaram das suas carnes."
Agora, alguns dirão que não podemos identificar esta palavra criativa (em Gênesis) e destrutiva (em Apocalipse) de Deus com a Bíblia em si, com estas palavras no papel que tenho em cima da mesa; e estão certos, são palavras diferentes, em ocasiões diferentes, para missões diferentes. Mas o Deus por trás de ambas é o mesmo; o poder mortificante e destrutivo da palavra Bíblica existe assim como seu poder vivificante, e a prova disto está em Hebreus 4:11-13. Ao falar do repouso que Deus tem para seu povo, e contrastando os que o rejeitaram com os que o terão na eternidade, o autor adverte: "Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar."
Com duas alternativas pela frente- entrar no repouso ou receber o castigo da desobediência- o homem é confrontado pela Palavra de Deus; e a Palavra surge como uma força neutra ao homem, como um agente de juízo, como uma espada que destrincha o homem interiormente e expõe seus pensamentos, suas emoções, seus planos, suas desculpas. As defesas, os esquemas, as justificativas; todas as cascas anteriores são despidas, e a mente do homem é atingida diretamente pela revelação de Deus. A Palavra é, simultaneamente, a Escritura que aponta o caminho para o repouso de Deus e a espada que sai de sua boca, pronta para matar o velho homem para que o novo surja. A semente corruptível é destruída para que seja gerada a semente incorruptível, "pela Palavra de Deus, viva e que permanece para sempre."
E aqui está o ponto a que quero chegar: enquanto nós falamos da "Espada do Espírito" como algo que aplicamos ás idéias de outros, a própria revelação fala da Palavra como algo com que Deus nos fere, como a espada que nos retalha e expõe nossa podridão interior. Quando lemos a Bíblia, não somos meramente edificados; somos perfurados. Perfurados para que aquilo que temos dentro de nós seja exposto e destruído, para que sejamos recriados. Empunho a palavra como uma espada, mas a direciono precisamente contra meu peito, e cometo seppuku com a Espada do Espírito. A Palavra me fere, me destrincha, me abre por dentro. Para que diariamente eu morra, e diariamente Cristo viva em mim.
Ao falar de um companheiro traiçoeiro, Salmo 55:21 diz, em típico modo paralelístico, "Sua fala é macia como a manteiga, mas guerra está em seu coração; suas palavras são mais brandas que o azeite, todavia são espadas nuas." Esta imagem é repetida pelos salmos e em Provérbios: as palavras do do enganador, do blasfemador e do tolo são descritas como lâminas cortantes. "Eis que eles dão gritos com a boca; espadas estão em seus lábios." "Eles afiaram a sua língua como espadas; e armaram, por suas flechas, palavras amargas." "Há alguns cujas palavras são como pontas de espada, mas a língua dos sábios é saúde." Em todas estas passagens a palavra-como-espada é a palavra de engano e de escárnio; o rumor divisivo, o insulto humilhante, a mentira agradável aos ouvidos mas duplamente destrutiva. Segundo Tiago, a língua desregrada "contamina todo o corpo, inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno."
A palavra de Deus, por outro lado, é descrita desde o início como possessora de poderes criativos; Deus cria o universo ex nihilo com sua palavra, e sustenta toda a criação "pela palavra de seu poder." E como Pedro explica, este poder criativo da palavra opera na própria salvação, "Pois fostes de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela Palavra de Deus, viva e que permance para sempre." Agora, o homem é incapaz de realmente criar ou destruir qualquer coisa, e pode apenas usar suas palavras (e mais qualquer habilidade que ele possua)para manipular seu ambiente; suas palavras podem apenas enganar ou consolar. Onde a palavra do homem é tentativa, porém, a palavra de Deus é absolutamente, esmagadoramente eficaz, e cumpre seu propósito não por seu mérito em convencer alguém de alguma proposição, mas simplesmente por ser a expressão da vontade de Deus. Assim, se a Palavra de Deus tem poder irrestrito para criar, seu poder destrutivo é de igual maneira ilimitado. O Servo do Senhor tem uma boca "como uma espada afiada". O Apocalipse de João diz que Jesus, vindo em poder e juízo, "segurava sete estrelas em sua mão direita, e da sua boca saía uma aguda espada de dois gumes; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandesce." "Arrepende-te, pois! Ou em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca." "E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com cetro de ferro, e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-poderoso." "E os demais foram mortos com a espada que saía da boca do que estava assentado sobre o cavalo, e todas as aves se fartaram das suas carnes."
Agora, alguns dirão que não podemos identificar esta palavra criativa (em Gênesis) e destrutiva (em Apocalipse) de Deus com a Bíblia em si, com estas palavras no papel que tenho em cima da mesa; e estão certos, são palavras diferentes, em ocasiões diferentes, para missões diferentes. Mas o Deus por trás de ambas é o mesmo; o poder mortificante e destrutivo da palavra Bíblica existe assim como seu poder vivificante, e a prova disto está em Hebreus 4:11-13. Ao falar do repouso que Deus tem para seu povo, e contrastando os que o rejeitaram com os que o terão na eternidade, o autor adverte: "Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar."
Com duas alternativas pela frente- entrar no repouso ou receber o castigo da desobediência- o homem é confrontado pela Palavra de Deus; e a Palavra surge como uma força neutra ao homem, como um agente de juízo, como uma espada que destrincha o homem interiormente e expõe seus pensamentos, suas emoções, seus planos, suas desculpas. As defesas, os esquemas, as justificativas; todas as cascas anteriores são despidas, e a mente do homem é atingida diretamente pela revelação de Deus. A Palavra é, simultaneamente, a Escritura que aponta o caminho para o repouso de Deus e a espada que sai de sua boca, pronta para matar o velho homem para que o novo surja. A semente corruptível é destruída para que seja gerada a semente incorruptível, "pela Palavra de Deus, viva e que permanece para sempre."
E aqui está o ponto a que quero chegar: enquanto nós falamos da "Espada do Espírito" como algo que aplicamos ás idéias de outros, a própria revelação fala da Palavra como algo com que Deus nos fere, como a espada que nos retalha e expõe nossa podridão interior. Quando lemos a Bíblia, não somos meramente edificados; somos perfurados. Perfurados para que aquilo que temos dentro de nós seja exposto e destruído, para que sejamos recriados. Empunho a palavra como uma espada, mas a direciono precisamente contra meu peito, e cometo seppuku com a Espada do Espírito. A Palavra me fere, me destrincha, me abre por dentro. Para que diariamente eu morra, e diariamente Cristo viva em mim.
domingo, 14 de setembro de 2008
Hooligans auf Wittenberg und anderen dingen
* Antes de mais nada: Acabo de descobrir que Gustavo Nagel (nosso Melanchthon para as massas) apagou seu blog justamente quando eu queria consultar um comentário que tinha feito nele há mais ou menos um ano e meio, mas agora está perdido para sempre. Raios. Ele não nos avisou disso, mas que diabos, faço a propaganda assim mesmo: vão para seu novo blog e deixem comentários generosos, elogiosos e admiráveis.
* É incrível como os inimigos de nossas causas muitas vezes nos inspiram mais do que seus proponentes. Reli este fim de semana o A New Christianity for a New World do bispo Spong, um livrinho com esperanças tão malignas para o cristianismo que me faz perguntar se teólogos pós-modernos são da mesma espécie que eu, e me senti envigorado. O apóstolo Paulo nos diz que precisamos pensar naquilo que é agradável, e justo, e santo; mas também é verdade que a peçonha de um servo de Satanás como Spong me envenena o espírito na medida certa, é como um tônico para a mente. Aliás, este é um princípio quase universalmente aplicável: se você quer ser feliz e edificado, leia os autores que te guiam, que você tem como norte, e leia autores novos ou semi-conhecidos, que ainda tem algo para ensinar ou algo para te entreter. Mas se você quer uma musculação para a mente, se quer uma pedra para afiar seu raciocínio, se quer fazer ferver seu sangue até um estado de prontidão e alerta, leia autores que você já examinou, e descobriu sem sombra de dúvida que são destrutivos ou idiotas. Assista um filme que você odeia, leia a autobiografia de um maldito canalha, leia os arquivos de um blog que você detesta (pode muito bem ser este blog agora mesmo), e veja como os seus pensamentos correm, acelerados, amolados, como pequenas cimitarras em sua cabeça. E este é o segredo da longevidade: nunca deixe seu sangue tranquilo, parado, congestionando suas veias com colesterol e coagulando em sua cabeça. Uma pequena infusão diária de irritação ou pura indignação para acelerar sua circulação e purificar seu sistema é mais eficaz e saudável que qualquer vitamina; e as pequenas cimitarras no seu sangue limpam as veias e, ainda por cima, embranquecem os dentes quando saem pela boca. Experimente.
* E enquanto estamos no assunto de livros irritantes, também li A Língua de Eulália, de Marcos Bagno, e achei a coisa mais condescente e falsamente piedosa (daquela piedade secular, mas duplamente melosa e sentimental) que já li na vida. Mas posso estar enganado, pode ser que seja um livro sincero, e o próprio Marcos Bagno recebe todos os melhores conselhos, admoestações e lições de vida de sua cozinheira banguela semi-analfabeta; mas ora vamos, não estou errado, é um livro não apenas ruim, mas falsamente escrito. Eulália (a cozinheira banguela semi-analfabeta do livro) é descrita como uma pessoa tão maravilhosa e corajosa que eu esperava que a qualquer momento ela sumiria da cozinha e apareceria milagrosamente a três crianças em Fátima; mas ao mesmo tempo, a doutora protagonista -que, condescentemente e insuportavelmente ensina as três meninas burras que é ok falar errado- é uma santa que chama sua empregada pra morar em casa com ela e trabalha enquanto ela cochila. O autor com uma mão exalta seu ideal do proletariado sábio e nobre, que fala português do jeito que quer, e com a outra glorifica onanisticamente a imagem de doutores tolerantes e sapientes como ele, que acham a norma culta uma conspiração das elites e fingem que os pelos de seus braços não arrepiam quando ouvem alguém dizer "probrema". E o leitor fica como as três alunas burras: presos nos sermões moralizantes, manipuladores e socialmente responsáveis da doutora.
* O lado negativo é que enquanto paro para ler livros ruins, fico sem tempo para ler os bons; e mais, fico sem ânimo. Quero ler A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, mas toda vez que sento para ler, olho para o tamanho do livro e desanimo, e deixo para outro dia, preferindo reler algum favorito, algum bom velho livro. E sei que se isto continuar por mais tempo, o Pedra terminará na mesma pilha que Os Irmãos Karamazov, Guerra e Paz, A Montanha Mágica, e todos os outros clássicos da literatura® que joguei de lado pra ler Catch-22 outra vez. Preciso que alguém que já leu o livro diga para mim que ele realmente é tão bom quanto seu título, e vale a pena ser lido.
* Este é agora, oficialmente, um de meus clips favoritos. Aliás, proponho para esta semana (se meus companheiros de blog estiverem dispostos a algo frívolo e besta) alguns posts listando os vídeos de youtube que vocês tem assistido ultimamente. Vamos, será divertido.
* Divulgação: Dos dias 17 a 19 de Setembro ocorrerá a IV Semana da Teologia na Faculdade Boas Novas, em Manaus. O tema deste ano é a pregação bíblica, e a semana contará com palestras do pastor Jorge Max e de vários professores da FBN, inclusive este que vos escreve, que fará o papel de besta falando sobre pregação narrativa. Se moram em Manaus e tem algum tempo livre, apareçam por lá.
* Existem dois tipos de pessoas no mundo: pessoas que ficam gratas a Jesus por salvá-las de seus pecados e pessoas que se sentem indignadas com a presunção de Jesus, de chegar assim querendo salvar as pessoas. As pessoas do primeiro grupo abjetamente confessam seus pecados e se lançam ás misericórdias de Deus; as pessoas do segundo grupo se sentem ofendidas com a insinuação de que são pecadoras e fracas, criaturas necessitando de um salvador. E curiosamente, a acusação das pessoas do segundo grupo contra as do primeiro é de que estes pecadores confessos e miseráveis imploradores de perdão são hipócritas, orgulhosos, e moralistas auto-satisfeitos. Hmm.
* É incrível como os inimigos de nossas causas muitas vezes nos inspiram mais do que seus proponentes. Reli este fim de semana o A New Christianity for a New World do bispo Spong, um livrinho com esperanças tão malignas para o cristianismo que me faz perguntar se teólogos pós-modernos são da mesma espécie que eu, e me senti envigorado. O apóstolo Paulo nos diz que precisamos pensar naquilo que é agradável, e justo, e santo; mas também é verdade que a peçonha de um servo de Satanás como Spong me envenena o espírito na medida certa, é como um tônico para a mente. Aliás, este é um princípio quase universalmente aplicável: se você quer ser feliz e edificado, leia os autores que te guiam, que você tem como norte, e leia autores novos ou semi-conhecidos, que ainda tem algo para ensinar ou algo para te entreter. Mas se você quer uma musculação para a mente, se quer uma pedra para afiar seu raciocínio, se quer fazer ferver seu sangue até um estado de prontidão e alerta, leia autores que você já examinou, e descobriu sem sombra de dúvida que são destrutivos ou idiotas. Assista um filme que você odeia, leia a autobiografia de um maldito canalha, leia os arquivos de um blog que você detesta (pode muito bem ser este blog agora mesmo), e veja como os seus pensamentos correm, acelerados, amolados, como pequenas cimitarras em sua cabeça. E este é o segredo da longevidade: nunca deixe seu sangue tranquilo, parado, congestionando suas veias com colesterol e coagulando em sua cabeça. Uma pequena infusão diária de irritação ou pura indignação para acelerar sua circulação e purificar seu sistema é mais eficaz e saudável que qualquer vitamina; e as pequenas cimitarras no seu sangue limpam as veias e, ainda por cima, embranquecem os dentes quando saem pela boca. Experimente.
* E enquanto estamos no assunto de livros irritantes, também li A Língua de Eulália, de Marcos Bagno, e achei a coisa mais condescente e falsamente piedosa (daquela piedade secular, mas duplamente melosa e sentimental) que já li na vida. Mas posso estar enganado, pode ser que seja um livro sincero, e o próprio Marcos Bagno recebe todos os melhores conselhos, admoestações e lições de vida de sua cozinheira banguela semi-analfabeta; mas ora vamos, não estou errado, é um livro não apenas ruim, mas falsamente escrito. Eulália (a cozinheira banguela semi-analfabeta do livro) é descrita como uma pessoa tão maravilhosa e corajosa que eu esperava que a qualquer momento ela sumiria da cozinha e apareceria milagrosamente a três crianças em Fátima; mas ao mesmo tempo, a doutora protagonista -que, condescentemente e insuportavelmente ensina as três meninas burras que é ok falar errado- é uma santa que chama sua empregada pra morar em casa com ela e trabalha enquanto ela cochila. O autor com uma mão exalta seu ideal do proletariado sábio e nobre, que fala português do jeito que quer, e com a outra glorifica onanisticamente a imagem de doutores tolerantes e sapientes como ele, que acham a norma culta uma conspiração das elites e fingem que os pelos de seus braços não arrepiam quando ouvem alguém dizer "probrema". E o leitor fica como as três alunas burras: presos nos sermões moralizantes, manipuladores e socialmente responsáveis da doutora.
* O lado negativo é que enquanto paro para ler livros ruins, fico sem tempo para ler os bons; e mais, fico sem ânimo. Quero ler A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, mas toda vez que sento para ler, olho para o tamanho do livro e desanimo, e deixo para outro dia, preferindo reler algum favorito, algum bom velho livro. E sei que se isto continuar por mais tempo, o Pedra terminará na mesma pilha que Os Irmãos Karamazov, Guerra e Paz, A Montanha Mágica, e todos os outros clássicos da literatura® que joguei de lado pra ler Catch-22 outra vez. Preciso que alguém que já leu o livro diga para mim que ele realmente é tão bom quanto seu título, e vale a pena ser lido.
* Este é agora, oficialmente, um de meus clips favoritos. Aliás, proponho para esta semana (se meus companheiros de blog estiverem dispostos a algo frívolo e besta) alguns posts listando os vídeos de youtube que vocês tem assistido ultimamente. Vamos, será divertido.
* Divulgação: Dos dias 17 a 19 de Setembro ocorrerá a IV Semana da Teologia na Faculdade Boas Novas, em Manaus. O tema deste ano é a pregação bíblica, e a semana contará com palestras do pastor Jorge Max e de vários professores da FBN, inclusive este que vos escreve, que fará o papel de besta falando sobre pregação narrativa. Se moram em Manaus e tem algum tempo livre, apareçam por lá.
* Existem dois tipos de pessoas no mundo: pessoas que ficam gratas a Jesus por salvá-las de seus pecados e pessoas que se sentem indignadas com a presunção de Jesus, de chegar assim querendo salvar as pessoas. As pessoas do primeiro grupo abjetamente confessam seus pecados e se lançam ás misericórdias de Deus; as pessoas do segundo grupo se sentem ofendidas com a insinuação de que são pecadoras e fracas, criaturas necessitando de um salvador. E curiosamente, a acusação das pessoas do segundo grupo contra as do primeiro é de que estes pecadores confessos e miseráveis imploradores de perdão são hipócritas, orgulhosos, e moralistas auto-satisfeitos. Hmm.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Quem sou eu?
Estava relendo este post do Nagel e realmente acredito que ele esteja correto ao dizer que "não há ligação alguma entre a minha crença na Trindade e meu desgosto por cigarros; entre minha esperança na ressurreição e meu desinteresse por cerveja". Sim, é verdade, mas é uma verdade que apenas a exceção aplica ou entende. Eu não culpo a mocinha achar que ele não sai pra balada por causa da igreja. A igreja se deu essa fama, e como dizer que não é assim? Qualquer "desculpa" que formos dar vai parecer exatamente isso, uma desculpa.
Comecei a pensar na minha identidade, em quem eu sou e como eu identifico. E eu sei que não é verdade, mas acredito que pra uma boa parte da população brasileira se eu disse que sou crente, vão pensar que no fim de semana eu uso terno e minha mãe usa saia o tempo todo. Se disser que sou evangélico, logo vão pensar que eu sou um tapado que dou dinheiro pra um pastor pilantra que chuta santinhas. Se eu disse que sou cristão a situação melhora um pouco, mas é bem provável que me liguem mais aos católicos que àquilo que realmente sou. Se eu disser que sou um "discípulo de Cristo", me sinto como um místico, similar a um "discípulo de Buda", ou um cara fugindo daquilo que realmente é, mas isso pode ser só preconceito meu. Eu me sentiria muito esquisito dizendo que sou um "discípulo de Cristo" pra alguém... Falha minha.
Daí vem a pergunta: eu deveria me importar? O que as pessoas pensam e concluem sobre mim é importante? Num primeiro momento eu penso "Não, que isso, eles que se danem, eu não posso me envergonhar do evangelho". Mas daí eu penso de novo... Eu não tenho vergonho do evangelho, mas tenho muita vergonha dos evangélicos, crentes e cristãos que existem por aí. Não porque eles erram em alguns pontos. Errar todos erramos. Mas por terem colocado na cabeça do mundo de que eles nunca erram. E agora, quem sou eu?
Comecei a pensar na minha identidade, em quem eu sou e como eu identifico. E eu sei que não é verdade, mas acredito que pra uma boa parte da população brasileira se eu disse que sou crente, vão pensar que no fim de semana eu uso terno e minha mãe usa saia o tempo todo. Se disser que sou evangélico, logo vão pensar que eu sou um tapado que dou dinheiro pra um pastor pilantra que chuta santinhas. Se eu disse que sou cristão a situação melhora um pouco, mas é bem provável que me liguem mais aos católicos que àquilo que realmente sou. Se eu disser que sou um "discípulo de Cristo", me sinto como um místico, similar a um "discípulo de Buda", ou um cara fugindo daquilo que realmente é, mas isso pode ser só preconceito meu. Eu me sentiria muito esquisito dizendo que sou um "discípulo de Cristo" pra alguém... Falha minha.
Daí vem a pergunta: eu deveria me importar? O que as pessoas pensam e concluem sobre mim é importante? Num primeiro momento eu penso "Não, que isso, eles que se danem, eu não posso me envergonhar do evangelho". Mas daí eu penso de novo... Eu não tenho vergonho do evangelho, mas tenho muita vergonha dos evangélicos, crentes e cristãos que existem por aí. Não porque eles erram em alguns pontos. Errar todos erramos. Mas por terem colocado na cabeça do mundo de que eles nunca erram. E agora, quem sou eu?
domingo, 17 de agosto de 2008
É o amor...
Eu sei que já faz muito tempo que não apareço por aqui. Na verdade apareci uma vez só, mas logo pretendo aparecer mais vezes (assim que eu me demitir do meu atual emprego).
Estou aparecendo pra responder ao Igor naquela “brincadeira” que ele sugeriu a um tempão atrás... O tempo do assunto já passou, mas eu não quis deixá-lo sem uma resposta, mesmo porque eu disse que daria uma.
O problema agora é dar uma resposta depois que o João já deu uma. Assim fica complicado, difícil demais pra mim. Não me restou muito que dizer, mas vou tentar.
Enfim. O Igor perguntou lá atrás: “eles crêem que eu me salve pela fé. Mas basta mesmo ter fé? Creio em um só Deus, Pai Onipotente, e em Jesus Cristo, seu filho unigênito, Nosso Senhor - Isso basta para ir pro céu?”
Creio que não podemos nos esquecer que toda árvore dá seu fruto, e aquela que não dá fruto, está morta. A fé que o João tão bem nos explicou gera em nós verdadeira transformação e, apesar de Paulo nos dizer que não precisamos de nada além desta fé para que sejamos salvos, Tiago nos instrui a demonstrá-la. E isso porque não adianta nada a gente dizer que é alguma coisa se ninguém pode ver e comprovar isto. “Ah, mas Deus ta vendo, isso que importa...”, seria simples assim se nós não fossemos a Igreja, o Corpo de Cristo na Terra. E quem é Cristo? O que Ele representa pra nós? O que nós queremos que os outros enxerguem de Cristo em nós? É baseado nisso que devemos regrar nossas palavras e atitudes. Não adianta você dizer pra uma pessoa que a ama. A palavra nunca vai conseguir traduzir o amor, mas uma atitude sim, e esse tipo de atitude só é possível através de uma verdadeira transformação gerada pela fé que é o dom de Deus, conforme I Coríntios 13.
A fé, aquela que salva e transforma, é dom de Deus, é dádiva que nós escolhemos receber ou não. A diferença entre ela e o simples assentimento intelectual é o fruto. É o amor.
Estou aparecendo pra responder ao Igor naquela “brincadeira” que ele sugeriu a um tempão atrás... O tempo do assunto já passou, mas eu não quis deixá-lo sem uma resposta, mesmo porque eu disse que daria uma.
O problema agora é dar uma resposta depois que o João já deu uma. Assim fica complicado, difícil demais pra mim. Não me restou muito que dizer, mas vou tentar.
Enfim. O Igor perguntou lá atrás: “eles crêem que eu me salve pela fé. Mas basta mesmo ter fé? Creio em um só Deus, Pai Onipotente, e em Jesus Cristo, seu filho unigênito, Nosso Senhor - Isso basta para ir pro céu?”
Creio que não podemos nos esquecer que toda árvore dá seu fruto, e aquela que não dá fruto, está morta. A fé que o João tão bem nos explicou gera em nós verdadeira transformação e, apesar de Paulo nos dizer que não precisamos de nada além desta fé para que sejamos salvos, Tiago nos instrui a demonstrá-la. E isso porque não adianta nada a gente dizer que é alguma coisa se ninguém pode ver e comprovar isto. “Ah, mas Deus ta vendo, isso que importa...”, seria simples assim se nós não fossemos a Igreja, o Corpo de Cristo na Terra. E quem é Cristo? O que Ele representa pra nós? O que nós queremos que os outros enxerguem de Cristo em nós? É baseado nisso que devemos regrar nossas palavras e atitudes. Não adianta você dizer pra uma pessoa que a ama. A palavra nunca vai conseguir traduzir o amor, mas uma atitude sim, e esse tipo de atitude só é possível através de uma verdadeira transformação gerada pela fé que é o dom de Deus, conforme I Coríntios 13.
A fé, aquela que salva e transforma, é dom de Deus, é dádiva que nós escolhemos receber ou não. A diferença entre ela e o simples assentimento intelectual é o fruto. É o amor.
Consequências
Primeiro post de três.
O que quebra o coração em Gênesis 3, o que momentariamente nos faz esquecer de doutrina e história sagrada e tudo mais, e fixa nosso olhar nas figuras desoladas de Adão e Eva exilados do jardim, é a irreversibilidade da perda deles. Uma desobediência os faz perder absolutamente tudo. Perdem seu lar e a cooperação da terra. Perdem sua igualdade e sua tranquilidade. Perdem a paz na presença de Deus, a reação natural da humanidade ao revelar-se de Deus sendo, daquele momento em diante, terror maior do que o da morte. Perdem a si mesmos- a naturalidade em seus corpos, a justiça de seus corações, a vida que lhes pertencia por direito- e ganham apenas o conhecimento do mal contrastado com seu conhecimento do bem. O que é, no final das contas, como qualquer outro experimentar de um vazio; como a fome, como a solidão, como a sensação oca quando desmoronamos por dentro, e nos sentimos apenas uma fachada de pele e olhos. E eles passaram de plenitude ao vazio de forma absoluta e irreversível, para nunca mais se recuperarem.
A lição de Adão e Eva, que eles nunca esqueceram, e nós sempre esquecemos, é que somos condenados a viver para sempre com aquilo que escolhemos, que as marcas de nossas escolhas nunca desaparecem. Mesmo purificados de nossos pecados, carregamos as mil marcas que elas deixaram sobre nós- sobre nossa mentalidade, sobre nosso corpo, sobre nossa honra- que já nem podem ser extirpadas, porque são parte de nós, são cicatrizes indeléveis. Este é o drama do livre arbítrio: que Deus respeita nossas escolhas malignas ao ponto de permitir- se nós insistirmos- que elas nos acorrentem para sempre. Deus nunca desfaz o mal; Ele aceita apenas redimí-lo. A morte de Jesus é um lembrete brutal de que Deus não recusou-se a morrer para que fossemos redimidos; mas ele se recusa a estalar os dedos e apagar os erros que houveram.
No final, nossa reconciliação com Deus nos levará para muito além do Éden; mas o Éden em si nunca mais voltará. Podemos ser deuses; podemos ser recriados na imagem de Cristo; podemos brilhar como sóis na eternidade; mas nunca fomos, e nunca seremos, humanos. Não realmente humanos. A humanidade teve uma vida muito curta. Existiu com Adão e Eva, brevemente, e então dissipou-se em vapor e sombra. Quando Adão e Eva saíram do jardim, Deus pôs na sua entrada um anjo como sentinela, para garantir que nunca mais voltassem. O anjo era quase desnecessário. O Adão e Eva que viviam no jardim não existiam mais.
O que quebra o coração em Gênesis 3, o que momentariamente nos faz esquecer de doutrina e história sagrada e tudo mais, e fixa nosso olhar nas figuras desoladas de Adão e Eva exilados do jardim, é a irreversibilidade da perda deles. Uma desobediência os faz perder absolutamente tudo. Perdem seu lar e a cooperação da terra. Perdem sua igualdade e sua tranquilidade. Perdem a paz na presença de Deus, a reação natural da humanidade ao revelar-se de Deus sendo, daquele momento em diante, terror maior do que o da morte. Perdem a si mesmos- a naturalidade em seus corpos, a justiça de seus corações, a vida que lhes pertencia por direito- e ganham apenas o conhecimento do mal contrastado com seu conhecimento do bem. O que é, no final das contas, como qualquer outro experimentar de um vazio; como a fome, como a solidão, como a sensação oca quando desmoronamos por dentro, e nos sentimos apenas uma fachada de pele e olhos. E eles passaram de plenitude ao vazio de forma absoluta e irreversível, para nunca mais se recuperarem.
A lição de Adão e Eva, que eles nunca esqueceram, e nós sempre esquecemos, é que somos condenados a viver para sempre com aquilo que escolhemos, que as marcas de nossas escolhas nunca desaparecem. Mesmo purificados de nossos pecados, carregamos as mil marcas que elas deixaram sobre nós- sobre nossa mentalidade, sobre nosso corpo, sobre nossa honra- que já nem podem ser extirpadas, porque são parte de nós, são cicatrizes indeléveis. Este é o drama do livre arbítrio: que Deus respeita nossas escolhas malignas ao ponto de permitir- se nós insistirmos- que elas nos acorrentem para sempre. Deus nunca desfaz o mal; Ele aceita apenas redimí-lo. A morte de Jesus é um lembrete brutal de que Deus não recusou-se a morrer para que fossemos redimidos; mas ele se recusa a estalar os dedos e apagar os erros que houveram.
No final, nossa reconciliação com Deus nos levará para muito além do Éden; mas o Éden em si nunca mais voltará. Podemos ser deuses; podemos ser recriados na imagem de Cristo; podemos brilhar como sóis na eternidade; mas nunca fomos, e nunca seremos, humanos. Não realmente humanos. A humanidade teve uma vida muito curta. Existiu com Adão e Eva, brevemente, e então dissipou-se em vapor e sombra. Quando Adão e Eva saíram do jardim, Deus pôs na sua entrada um anjo como sentinela, para garantir que nunca mais voltassem. O anjo era quase desnecessário. O Adão e Eva que viviam no jardim não existiam mais.
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segunda-feira, 28 de julho de 2008
Começo aqui
um longo, épico e, assim espero, divertidíssimo texto sobre as relações entre o Cristianismo e a Política.
Para ser bem longo, vou abordar o tema de dois pontos de vista: O filosófico e o histórico. Peço-vos boa vontade. Anos de política idiota, perversa e demente fizeram do Brasil um lugar lotado de ignorantes esperançosos seduzíveis e cínicos “esclarecidos”. Uma visão positiva, isenta e comprometida com o acréscimo de conhecimento da verdade é hoje em dia algo muito raro; é o que proponho, rogando a Deus que me ajude a conseguir expor o que por mim mesmo não poderia.
Começando pelo começo, vamos definir cristianismo como o conjunto de crenças e comportamentos que assume, ou deveria assumir, o sujeito que abraça a fé cristã. Esta definição tem sua utilidade para nosso propósito pois define o cristianismo pelo seu caráter social, independente da fé de cada indivíduo – que se omito não é por querer negar, é claro.
E vamos tomar como definição clássica de política que esta seja a maneira pela qual os homens convivem em sociedade e organizam esta convivência para o bem comum.
Entre duas realizações humanas (e aqui chamo a religião de realização num sentido diverso de criação, se é que você já não entendeu; a religião foi revelada por Deus, mas é praticada, também, pelo homem), inscritas no tempo, pode haver exclusão, coordenação ou subordinação.
Não me parece necessário explicar que entre a religião cristã e a vida política não há exclusão. O Cristianismo bíblico oferece as provas: Cristo diante de Pilatos disse que “Não terias nenhum poder sobre mim se este não te viesse do Alto”. Já São Paulo mandava na epístola aos romanos que fôssemos submissos às autoridades constituídas, pois nenhuma há que não tenha sido instituída por Deus. Disso tiramos uma certeza: Não há cristianismo anárquico.
Pode, portanto, haver coordenação ou subordinação entre a vida política e a cristã. Sabemos, também, que só pode haver coordenação de meios quando há igualdade de fins; e que a finalidade da vida cristã obter para as almas a boa vida eterna, enquanto a da vida política é obter para os indivíduos a boa vida terrena. Portanto, não se podem coordenar vida política e cristã, sendo necessário optar por um dos fins como superior (não ficando o outro desprezado) e portanto, um dos meios como ordenador, e o outro como subordinado.
Aqui poderíamos partir do princípio que, neste blog cristão, todos os leitores já fizeram a opção pela vida espiritual como mais importante que a corporal, mas não vamos. Primeiro porque não é tanto para convertidos que pregamos aqui, mas para aqueles que precisam se converter; e depois porque mesmo entre muitos cristãos prevalece a impressão de que as duas vidas não precisam superpor-se, convivendo lado a lado sem muita interação.
E isto é falso. Falso porque, como já visto, não há coordenação e paralelismo possível entre a vida política e a religiosa; e também porque pela própria natureza das duas atividades haverá, em toda a vida, ocasiões em que a política e a religião têm que ser praticadas simultaneamente.
Resta, então, a hipótese de que a vida religiosa deve ordenar e inspirar a vida política. Para isto, contribuem as seguintes analogias:
1) Em ambas há lei. Porém, a lei política na melhor das hipóteses será oriunda da lei natural, interpretada pelos homens à luz da virtude da justiça; enquanto a lei religiosa será dada por Deus, e portanto inacessível por si aos homens, sendo assim mais preciosa e digna de guarda.
2) Em ambas há hierarquia. Porém, a hierarquia política é técnica e funcional: O indivíduo e sua função se separam tanto quanto a sociedade não seja tirânica, e espere somente o exercício das funções administrativas, legisladoras e disciplinadoras dos ocupantes de cargos públicos, sem que com isso eles percam as atribuições de cidadão. Na hierarquia religiosa, no entanto, ocorre o contrário: Qualquer mudança é mudança de qualidade, e pega-se ao que o indivíduo tem de mais íntimo, sem que se creia possível desfazer esta mudança sem desfazer o próprio indivíduo. A hierarquia política, portanto, caracteriza-se por uma união circunstancial entre indivíduo e cargo; a hierarquia religiosa por uma unidade perenal entre alma e vocação.
3) Em ambas há convivência e troca de bens. No entanto, a vida política progride na medida em que os cidadãos fazem circular os bens materiais que garantem a segurança e o progresso da vida civil, enquanto na vida religiosa os bens que se trocam são oriundos de Deus, e por isso chamados dons. Mas uma diferença é essencial: Na cidade, aquele de quem muito se toma e a quem pouco se dá, por uma injustiça da sociedade, é o lado derrotado de uma sociedade competitiva; na Igreja, aquele que muito dá e pouco toma é o vencedor, ou mais que isso, pois é um vencedor que não deixa vencidos. Por isso se vê que a frutificação dos bens é mais eficiente no solo de Deus que no solo dos homens.
Com isso temos como patente que a política deve se pautar pela religião, e esta deve ser o princípio ordenador da política.
E isso nos traz uma questão atual: Como fazer boa política, isto é, política subordinada ao cristianismo, num sistema que já recebemos defeituoso, para usar uma palavra suave?
Confesso que não sei bem. O que tenho como certo é que, na impossibilidade de agir bem, deve-se no mínimo tentar não agir mal. Por isso, o mais recomendado para os cristãos me parece ser, neste momento, começar a pensar em votar nulo.
(continua)
Para ser bem longo, vou abordar o tema de dois pontos de vista: O filosófico e o histórico. Peço-vos boa vontade. Anos de política idiota, perversa e demente fizeram do Brasil um lugar lotado de ignorantes esperançosos seduzíveis e cínicos “esclarecidos”. Uma visão positiva, isenta e comprometida com o acréscimo de conhecimento da verdade é hoje em dia algo muito raro; é o que proponho, rogando a Deus que me ajude a conseguir expor o que por mim mesmo não poderia.
Começando pelo começo, vamos definir cristianismo como o conjunto de crenças e comportamentos que assume, ou deveria assumir, o sujeito que abraça a fé cristã. Esta definição tem sua utilidade para nosso propósito pois define o cristianismo pelo seu caráter social, independente da fé de cada indivíduo – que se omito não é por querer negar, é claro.
E vamos tomar como definição clássica de política que esta seja a maneira pela qual os homens convivem em sociedade e organizam esta convivência para o bem comum.
Entre duas realizações humanas (e aqui chamo a religião de realização num sentido diverso de criação, se é que você já não entendeu; a religião foi revelada por Deus, mas é praticada, também, pelo homem), inscritas no tempo, pode haver exclusão, coordenação ou subordinação.
Não me parece necessário explicar que entre a religião cristã e a vida política não há exclusão. O Cristianismo bíblico oferece as provas: Cristo diante de Pilatos disse que “Não terias nenhum poder sobre mim se este não te viesse do Alto”. Já São Paulo mandava na epístola aos romanos que fôssemos submissos às autoridades constituídas, pois nenhuma há que não tenha sido instituída por Deus. Disso tiramos uma certeza: Não há cristianismo anárquico.
Pode, portanto, haver coordenação ou subordinação entre a vida política e a cristã. Sabemos, também, que só pode haver coordenação de meios quando há igualdade de fins; e que a finalidade da vida cristã obter para as almas a boa vida eterna, enquanto a da vida política é obter para os indivíduos a boa vida terrena. Portanto, não se podem coordenar vida política e cristã, sendo necessário optar por um dos fins como superior (não ficando o outro desprezado) e portanto, um dos meios como ordenador, e o outro como subordinado.
Aqui poderíamos partir do princípio que, neste blog cristão, todos os leitores já fizeram a opção pela vida espiritual como mais importante que a corporal, mas não vamos. Primeiro porque não é tanto para convertidos que pregamos aqui, mas para aqueles que precisam se converter; e depois porque mesmo entre muitos cristãos prevalece a impressão de que as duas vidas não precisam superpor-se, convivendo lado a lado sem muita interação.
E isto é falso. Falso porque, como já visto, não há coordenação e paralelismo possível entre a vida política e a religiosa; e também porque pela própria natureza das duas atividades haverá, em toda a vida, ocasiões em que a política e a religião têm que ser praticadas simultaneamente.
Resta, então, a hipótese de que a vida religiosa deve ordenar e inspirar a vida política. Para isto, contribuem as seguintes analogias:
1) Em ambas há lei. Porém, a lei política na melhor das hipóteses será oriunda da lei natural, interpretada pelos homens à luz da virtude da justiça; enquanto a lei religiosa será dada por Deus, e portanto inacessível por si aos homens, sendo assim mais preciosa e digna de guarda.
2) Em ambas há hierarquia. Porém, a hierarquia política é técnica e funcional: O indivíduo e sua função se separam tanto quanto a sociedade não seja tirânica, e espere somente o exercício das funções administrativas, legisladoras e disciplinadoras dos ocupantes de cargos públicos, sem que com isso eles percam as atribuições de cidadão. Na hierarquia religiosa, no entanto, ocorre o contrário: Qualquer mudança é mudança de qualidade, e pega-se ao que o indivíduo tem de mais íntimo, sem que se creia possível desfazer esta mudança sem desfazer o próprio indivíduo. A hierarquia política, portanto, caracteriza-se por uma união circunstancial entre indivíduo e cargo; a hierarquia religiosa por uma unidade perenal entre alma e vocação.
3) Em ambas há convivência e troca de bens. No entanto, a vida política progride na medida em que os cidadãos fazem circular os bens materiais que garantem a segurança e o progresso da vida civil, enquanto na vida religiosa os bens que se trocam são oriundos de Deus, e por isso chamados dons. Mas uma diferença é essencial: Na cidade, aquele de quem muito se toma e a quem pouco se dá, por uma injustiça da sociedade, é o lado derrotado de uma sociedade competitiva; na Igreja, aquele que muito dá e pouco toma é o vencedor, ou mais que isso, pois é um vencedor que não deixa vencidos. Por isso se vê que a frutificação dos bens é mais eficiente no solo de Deus que no solo dos homens.
Com isso temos como patente que a política deve se pautar pela religião, e esta deve ser o princípio ordenador da política.
E isso nos traz uma questão atual: Como fazer boa política, isto é, política subordinada ao cristianismo, num sistema que já recebemos defeituoso, para usar uma palavra suave?
Confesso que não sei bem. O que tenho como certo é que, na impossibilidade de agir bem, deve-se no mínimo tentar não agir mal. Por isso, o mais recomendado para os cristãos me parece ser, neste momento, começar a pensar em votar nulo.
(continua)
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Igor
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quinta-feira, 24 de julho de 2008
O problema da tipologia
Eu tendo a fugir de interpretações tipológicas de quase toda passagem bíblica, o que ás vezes me rende protestos de alunos e amigos. "Como você pode dizer que (insira nome de personagem vetero-testamentário) não é um tipo de Cristo?" "Mas é claro que (insira figura vetero-testamentária) representa a Igreja!" "Cuidado, a letra mata, mas o espírito vivifica!" Após uma conversa com o Igor, decidi explicar meus motivos para rejeitar este tipo de interpretação.
A tipologia, na teologia, é uma forma de interpretar certas passagens do Antigo Testamento como alusões proféticas a figuras e doutrinas do Novo Testamento. Assim, certos personagens com características que lembram a Jesus são considerados, por alguns, como tipos de Cristo. A ovelha sacrificial é um tipo de Cristo, Jonas, que passou três dias na barriga de um peixe (a barriga do peixe, presumivelmente, sendo um tipo de inferno) é um tipo de Cristo, Josué, por ter o mesmo nome e liderar uma conquista, seria um tipo de Cristo. Outra categoria popular de tipos seria tipos da Igreja; a Sulamita de Cantares é um tipo da Igreja, a arca de Noé é um tipo de Igreja, e Israel é o tipo de Igreja par excellence. Tipos são fáceis de achar no Antigo Testamento. De fato, é praticamente impossível encontrar um personagem sequer de todo o Antigo Testamento que não pode ser visto como tipo de algum elemento da teologia cristã. E é isto que acaba gerando problemas.
Não há como negar, está certo, que os próprios autores néo-testamentários se serviram de tipos; o autor de Hebreus evoca a figura de Melquisedeque para compará-lo a Cristo, Paulo aponta para a Igreja como sendo Isaque, os herdeiros legítimos de Abraão, e o próprio Cristo aponta para a serpente que Moisés ergueu no deserto como sinal passado de sua crucificação. E se eles usaram tipos, não ouso dizer que tipos não existem. Podemos, e devemos, usar os tipos que eles nos deixaram, e estudar os mistérios que eles nos revelaram. Mas não podemos- não ousamos- descobrir tipos no Antigo Testamento se não há menção deles no Novo. Se o fizermos, corremos o risco sério e perigoso de inserirmos nosso significado, nossa leitura, nossas opiniões, sobre um texto que tem nada a ver com o que desejamos ler nele. Sacrificamos a palavra viva e real do Antigo Testamento em favor do catálogo particular de imagens e alusões que desejamos ver estampado sobre suas páginas.
A tipologia é uma caixa de Pandora. Uma vez que você comece a interpretar a Bíblia desta forma, é praticamente impossível traçar um limite de onde parar, e você passa a enxergar Jesus atrás de todo arbusto. Quem começa a ver Jesus em um tipo fica sem recurso, sem defesa, para protestar quando outros vêem Jesus em outro tipo; e logo o Antigo Testamento deixa de existir como registro da história do povo de Deus, e passa a ser um longo prelúdio ao Novo Testamento. O Antigo Testamento deixa de existir em seu próprio direito, e vira apenas um índice ilustrativo dos personagens do Novo Testamento. Todo o vasto épico de Israel se esvai, perde seu poder e seu significado, e perde sua significância histórica, visto que o que antes era tido como história sagrada passa a ser lido como profecia. E profetas, como até Nosso Senhor o confessou, são os mais mal-compreendidos e mal-aceitos dos homens.
O problema com a tipologia é que todos podem enxergar diferentes tipos em diferentes personagens bíblicos. Toda figura do Antigo Testamento pode virar um tipo de Cristo, até mesmo o nome mais obscuro ou o canalha mais baixo. Faraó é um tipo de Cristo, pois os monumentos com sua face cobrem toda a terra. Labão é um tipo de Cristo, pois o povo de Deus o serve. Pelegue é um tipo de Cristo, pois em seus dias a terra foi dividida, e Cristo vem não para trazer paz, mas para dividir com uma espada. Saul é um tipo de Cristo, pois Cristo é um rei forte e poderoso, o primeiro de seu povo. Sansão é um tipo de Cristo, porque os filisteus são- é claro- um tipo de Satanás, e Cristo derrota Satanás. Dalila é um tipo de Cristo, pois seduz até aos mais fortes, e enfraquece os soberbos. Jezabel é um tipo de Cristo, pois é reconhecida pelas palmas das mãos. Eglom é um tipo de Cristo, porque nele há abundância e fartura. Balaão é um tipo de Cristo, porque andou montado sobre uma jumenta. E a jumenta de Balaão, óbviamente, é um tipo da Igreja, porque Cristo está sobre ela.
A tipologia, na teologia, é uma forma de interpretar certas passagens do Antigo Testamento como alusões proféticas a figuras e doutrinas do Novo Testamento. Assim, certos personagens com características que lembram a Jesus são considerados, por alguns, como tipos de Cristo. A ovelha sacrificial é um tipo de Cristo, Jonas, que passou três dias na barriga de um peixe (a barriga do peixe, presumivelmente, sendo um tipo de inferno) é um tipo de Cristo, Josué, por ter o mesmo nome e liderar uma conquista, seria um tipo de Cristo. Outra categoria popular de tipos seria tipos da Igreja; a Sulamita de Cantares é um tipo da Igreja, a arca de Noé é um tipo de Igreja, e Israel é o tipo de Igreja par excellence. Tipos são fáceis de achar no Antigo Testamento. De fato, é praticamente impossível encontrar um personagem sequer de todo o Antigo Testamento que não pode ser visto como tipo de algum elemento da teologia cristã. E é isto que acaba gerando problemas.
Não há como negar, está certo, que os próprios autores néo-testamentários se serviram de tipos; o autor de Hebreus evoca a figura de Melquisedeque para compará-lo a Cristo, Paulo aponta para a Igreja como sendo Isaque, os herdeiros legítimos de Abraão, e o próprio Cristo aponta para a serpente que Moisés ergueu no deserto como sinal passado de sua crucificação. E se eles usaram tipos, não ouso dizer que tipos não existem. Podemos, e devemos, usar os tipos que eles nos deixaram, e estudar os mistérios que eles nos revelaram. Mas não podemos- não ousamos- descobrir tipos no Antigo Testamento se não há menção deles no Novo. Se o fizermos, corremos o risco sério e perigoso de inserirmos nosso significado, nossa leitura, nossas opiniões, sobre um texto que tem nada a ver com o que desejamos ler nele. Sacrificamos a palavra viva e real do Antigo Testamento em favor do catálogo particular de imagens e alusões que desejamos ver estampado sobre suas páginas.
A tipologia é uma caixa de Pandora. Uma vez que você comece a interpretar a Bíblia desta forma, é praticamente impossível traçar um limite de onde parar, e você passa a enxergar Jesus atrás de todo arbusto. Quem começa a ver Jesus em um tipo fica sem recurso, sem defesa, para protestar quando outros vêem Jesus em outro tipo; e logo o Antigo Testamento deixa de existir como registro da história do povo de Deus, e passa a ser um longo prelúdio ao Novo Testamento. O Antigo Testamento deixa de existir em seu próprio direito, e vira apenas um índice ilustrativo dos personagens do Novo Testamento. Todo o vasto épico de Israel se esvai, perde seu poder e seu significado, e perde sua significância histórica, visto que o que antes era tido como história sagrada passa a ser lido como profecia. E profetas, como até Nosso Senhor o confessou, são os mais mal-compreendidos e mal-aceitos dos homens.
O problema com a tipologia é que todos podem enxergar diferentes tipos em diferentes personagens bíblicos. Toda figura do Antigo Testamento pode virar um tipo de Cristo, até mesmo o nome mais obscuro ou o canalha mais baixo. Faraó é um tipo de Cristo, pois os monumentos com sua face cobrem toda a terra. Labão é um tipo de Cristo, pois o povo de Deus o serve. Pelegue é um tipo de Cristo, pois em seus dias a terra foi dividida, e Cristo vem não para trazer paz, mas para dividir com uma espada. Saul é um tipo de Cristo, pois Cristo é um rei forte e poderoso, o primeiro de seu povo. Sansão é um tipo de Cristo, porque os filisteus são- é claro- um tipo de Satanás, e Cristo derrota Satanás. Dalila é um tipo de Cristo, pois seduz até aos mais fortes, e enfraquece os soberbos. Jezabel é um tipo de Cristo, pois é reconhecida pelas palmas das mãos. Eglom é um tipo de Cristo, porque nele há abundância e fartura. Balaão é um tipo de Cristo, porque andou montado sobre uma jumenta. E a jumenta de Balaão, óbviamente, é um tipo da Igreja, porque Cristo está sobre ela.
domingo, 13 de julho de 2008
O baile funk gospel
Nunca entendi o fascínio que a gospelização de entretenimento secular tem sobre tantos crentes. Entendo o impulso de buscar alternativas musicais evangélicas dentro de cada gênero, e por isto entendo, e simpatizo com, a interminável fileira de pagodeiros, metaleiros e forrózeiros evangélicos- desde que, é claro, eu não tenha que ouvir a música deles. Mas as pessoas levam isto longe, longe demais, para atividades que são duvidosamente cristãs, ou até mais, abertamente opostas à prática cristã.
Por exemplo: o baile funk gospel. Em teoria, concordo 100% com a idéia de que é possível glorificar a Deus com o funk, tanto quanto com qualquer outro gênero musical. MAS: alguém já foi para um baile funk gospel sem ver pessoas se trepando na pista? Eu já vi, com estes olhos de carne, pessoas dançando num baile evangélico de formas que deixariam as dançarinas do créu envergonhadas. O mesmo com a rave evangélica. E mais: música de rave, pelo menos segundo meu entendimento limitado, é aquela sucessão de batidas repetitivas e somente apreciáveis com a ingestão de pelo menos alguns halucinógenos. Num gênero onde poucas músicas sequer tem pessoas cantando, como, exatamente, é possível fazer uma música cristã?
E eis o que estou tentando dizer: não é que participar de um baile funk gospel ou de uma rave gospel seja pecado; mas se as pessoas vão se comportar de forma mundana em ambos, porque não vão logo para um baile mundano? Se você vai dançar como as cachorras, porque quer fazê-lo ao som de músicas sobre Jesus? Se as pessoas agem de forma exatamente igual em um ambiente e no outro, qual é a diferença entre um e outro? Porque se preocupar em fazer uma alternativa gospel, se a alternativa possui diferença nenhuma do padrão secular?
Por exemplo: o baile funk gospel. Em teoria, concordo 100% com a idéia de que é possível glorificar a Deus com o funk, tanto quanto com qualquer outro gênero musical. MAS: alguém já foi para um baile funk gospel sem ver pessoas se trepando na pista? Eu já vi, com estes olhos de carne, pessoas dançando num baile evangélico de formas que deixariam as dançarinas do créu envergonhadas. O mesmo com a rave evangélica. E mais: música de rave, pelo menos segundo meu entendimento limitado, é aquela sucessão de batidas repetitivas e somente apreciáveis com a ingestão de pelo menos alguns halucinógenos. Num gênero onde poucas músicas sequer tem pessoas cantando, como, exatamente, é possível fazer uma música cristã?
E eis o que estou tentando dizer: não é que participar de um baile funk gospel ou de uma rave gospel seja pecado; mas se as pessoas vão se comportar de forma mundana em ambos, porque não vão logo para um baile mundano? Se você vai dançar como as cachorras, porque quer fazê-lo ao som de músicas sobre Jesus? Se as pessoas agem de forma exatamente igual em um ambiente e no outro, qual é a diferença entre um e outro? Porque se preocupar em fazer uma alternativa gospel, se a alternativa possui diferença nenhuma do padrão secular?
quinta-feira, 10 de julho de 2008
E isto não vem de vós
Respondendo ao desafio do Igor, vou explicar, de modo grosso e geral, o que significa o conceito protestante de salvação pela fé. Salvação pela fé é uma expressão mal-usada, muitas vezes, justamente porque leva pessoas a acharem que tudo o que basta para a salvação é uma espécie de assentimento intelectual. "Sim, sim, Deus é jóia, e Jesus é maravilhoso- agora sou salvo também." Não é. A salvação nunca- nunca, nunca- pode partir de iniciativa nossa, nunca é uma decisão inicial nossa, nunca é uma busca nossa. Não é uma questão simples de "ter" fé. Mas vamos começar do começo.
O homem sem Deus não tem a possibilidade, a chance, a sombra de uma esperança, de satisfazer a justiça eterna de Deus, e nem a menor vontade de fazê-lo. Romanos 3:9-20 já explica claramente a posição humana. Por isto, apesar de muito querer, não consigo acreditar na salvação daqueles que nunca ouviram o evangelho; eles não podem ser batizados pelo desejo pelo simples motivo de que o desejo do homem caído é completamente corrompido. Egoísmo, ódio, e a inimizade contra Deus são o status espiritual inicial de todo ser humano, e é isto- e não o fato de nunca terem ouvido o evangelho- que os condena. É a doença que mata, não a falta de remédio.
Esta incapacidade de justiça real, de buscar a Deus, também é o motivo pelo qual o homem não pode simplesmente escolher ter fé. É o motivo pelo qual obra nenhuma- nem mesmo a obra de amar a igreja, ou de pertencer a ela- pode salvar; nossa justiça é imunda, nossas mãos são fracas, nossa vontade é escrava, e nossa fé não é nem mesmo nossa, porque é um dom de Deus, e não uma decisão humana. Se o homem pudesse ser salvo por obras, poderia ser salvo pela lei; e se o homem pode ser salvo pela lei, Jesus morreu em vão. O homem é salvo inteiramente pela ação e misericórdia de Deus. Ele nos busca, e não vice-versa. Nesta visão de depravação total tanto calvinistas como arminianos concordam.
O novo nascimento, o momento em que o homem deixa de viver em trevas e passa a andar na luz, o momento em que ele deixa de pertencer ao mundo e passa a ser um filho de Deus, é resultado da fé. Através da fé o homem pode aceitar o sacrifício de Cristo, através da fé o homem pode entrar na nova existência; mas esta fé não é, como já foi dito acima, uma atitude humana, um mero assentimento intelectual. É dom de Deus. Aliás, o próprio Paulo explica isto majestosamente em Efésios 2, uma das mais perfeitas exposições da doutrina da salvação. Daí a dificuldade de definir "que tipo de fé" salva; porque a única fé verdadeira, a fé real que gera arrependimento e salvação, vem exclusivamente do alto, e é impossível compreendê-la completamente.
Quanto a como o homem recebe esta fé- seja pela graça irresistível de Deus, segundo seu conselho eterno (como diria um calvinista), seja pela graça preveniente de Deus, segundo sua vontade de salvar a todos (como diria um arminiano)- isto é objeto de debate esquentado; mas debate intra-protestante, e não debate protestante-católico. Ambos, no final, afirmam a mesma coisa: apesar da salvação vir pela fé, a fé não é criada por nós, mas dada por Deus. A salvação não vem se você combinar as doutrinas certas em sua mente, como se a salvação fosse uma receita de bolo com diversos ingredientes; a salvação vem quando você recebe de Deus o dom da fé- e esta fé não é uma sensação fofinha, uma mera inclinação espiritual ou mística, mas carrega dentro de si um conjunto de doutrinas sólidas e eternas. A fé não é mero assentimento intelectual, mas ela opera não somente no coração, mas também (e talvez principalmente) na mente.
Quanto ao conteúdo desta fé, os pontos específicos nos quais passamos a crer, é complicado dizer que um ou outro é absolutamente necessário como sinal de que a fé é verdadeira. Creio, porém, que a fé gerada por Deus estará fundamentada nas seguintes verdades: que há um só Deus em três pessoas: Pai, Filho, e Espírito Santo; que este Deus é nosso criador, e criador do universo, e que todas as coisas foram criadas para sua glória; que pelo pecado de Adão nos tornamos pecadores merecedores do inferno, mas a misericórdia de Jesus Cristo, Deus e Filho de Deus, excedeu nossa iniquidade; que Jesus Cristo, o Filho eterno, o Logos de Deus, a perfeita expressão de seu caráter, se fez carne, viveu sem pecado, foi traído, torturado, e executado, e pagou por nossos pecados com seu justíssimo sangue; que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, vencendo a morte e garantindo a ressurreição futura daqueles que o servem; que Jesus Cristo ascendeu ao Pai, e está assentado ao seu lado direito, governando sua igreja e preparando um lugar para ela na eternidade; que Deus agora aceita e justifica suas criaturas pelo sacrifício de Cristo; que ao homem justificado é possível buscar santificação, e viver em obediência a Deus, através do poder e da presença vivificante do Espírito Santo; que há uma comunidade eterna e única dos santos, o corpo de Cristo: a Igreja, santa e gloriosa, eternamente e espiritualmente unida, apesar de estar separada por divisões temporárias e dissensões doutrinárias; que Deus nos deixou sua Palavra, santa e inspirada, proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, e para instruir em justiça; que um dia Jesus Cristo dará um fim à história humana, e que todos- os vivos e os mortos, os santos e os pecadores- darão contas perante a ele; que novos céus e nova terra aguardam os que pertencem ao Senhor, mas todo aquele que recusou sua misericórdia sofrerá eternamente sob seu juízo.
Estes são os pontos sobre os quais todo cristão pode (ou ao menos deveria) concordar, os ossos do cristianismo, os fundamentos sem os quais o edifício não pode ser construído. Não digo que a fé resultará apenas nestas crenças, mas que a fé não virá sem que elas venham junto. E é esta fé, que vem do Senhor e transforma nossas mentes, que traz a salvação, tanto do protestante quanto do católico. Esta é, de modo resumido e grosso, a posição protestante, e é o que queremos dizer quando pregamos que a salvação vem pela fé.
O homem sem Deus não tem a possibilidade, a chance, a sombra de uma esperança, de satisfazer a justiça eterna de Deus, e nem a menor vontade de fazê-lo. Romanos 3:9-20 já explica claramente a posição humana. Por isto, apesar de muito querer, não consigo acreditar na salvação daqueles que nunca ouviram o evangelho; eles não podem ser batizados pelo desejo pelo simples motivo de que o desejo do homem caído é completamente corrompido. Egoísmo, ódio, e a inimizade contra Deus são o status espiritual inicial de todo ser humano, e é isto- e não o fato de nunca terem ouvido o evangelho- que os condena. É a doença que mata, não a falta de remédio.
Esta incapacidade de justiça real, de buscar a Deus, também é o motivo pelo qual o homem não pode simplesmente escolher ter fé. É o motivo pelo qual obra nenhuma- nem mesmo a obra de amar a igreja, ou de pertencer a ela- pode salvar; nossa justiça é imunda, nossas mãos são fracas, nossa vontade é escrava, e nossa fé não é nem mesmo nossa, porque é um dom de Deus, e não uma decisão humana. Se o homem pudesse ser salvo por obras, poderia ser salvo pela lei; e se o homem pode ser salvo pela lei, Jesus morreu em vão. O homem é salvo inteiramente pela ação e misericórdia de Deus. Ele nos busca, e não vice-versa. Nesta visão de depravação total tanto calvinistas como arminianos concordam.
O novo nascimento, o momento em que o homem deixa de viver em trevas e passa a andar na luz, o momento em que ele deixa de pertencer ao mundo e passa a ser um filho de Deus, é resultado da fé. Através da fé o homem pode aceitar o sacrifício de Cristo, através da fé o homem pode entrar na nova existência; mas esta fé não é, como já foi dito acima, uma atitude humana, um mero assentimento intelectual. É dom de Deus. Aliás, o próprio Paulo explica isto majestosamente em Efésios 2, uma das mais perfeitas exposições da doutrina da salvação. Daí a dificuldade de definir "que tipo de fé" salva; porque a única fé verdadeira, a fé real que gera arrependimento e salvação, vem exclusivamente do alto, e é impossível compreendê-la completamente.
Quanto a como o homem recebe esta fé- seja pela graça irresistível de Deus, segundo seu conselho eterno (como diria um calvinista), seja pela graça preveniente de Deus, segundo sua vontade de salvar a todos (como diria um arminiano)- isto é objeto de debate esquentado; mas debate intra-protestante, e não debate protestante-católico. Ambos, no final, afirmam a mesma coisa: apesar da salvação vir pela fé, a fé não é criada por nós, mas dada por Deus. A salvação não vem se você combinar as doutrinas certas em sua mente, como se a salvação fosse uma receita de bolo com diversos ingredientes; a salvação vem quando você recebe de Deus o dom da fé- e esta fé não é uma sensação fofinha, uma mera inclinação espiritual ou mística, mas carrega dentro de si um conjunto de doutrinas sólidas e eternas. A fé não é mero assentimento intelectual, mas ela opera não somente no coração, mas também (e talvez principalmente) na mente.
Quanto ao conteúdo desta fé, os pontos específicos nos quais passamos a crer, é complicado dizer que um ou outro é absolutamente necessário como sinal de que a fé é verdadeira. Creio, porém, que a fé gerada por Deus estará fundamentada nas seguintes verdades: que há um só Deus em três pessoas: Pai, Filho, e Espírito Santo; que este Deus é nosso criador, e criador do universo, e que todas as coisas foram criadas para sua glória; que pelo pecado de Adão nos tornamos pecadores merecedores do inferno, mas a misericórdia de Jesus Cristo, Deus e Filho de Deus, excedeu nossa iniquidade; que Jesus Cristo, o Filho eterno, o Logos de Deus, a perfeita expressão de seu caráter, se fez carne, viveu sem pecado, foi traído, torturado, e executado, e pagou por nossos pecados com seu justíssimo sangue; que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, vencendo a morte e garantindo a ressurreição futura daqueles que o servem; que Jesus Cristo ascendeu ao Pai, e está assentado ao seu lado direito, governando sua igreja e preparando um lugar para ela na eternidade; que Deus agora aceita e justifica suas criaturas pelo sacrifício de Cristo; que ao homem justificado é possível buscar santificação, e viver em obediência a Deus, através do poder e da presença vivificante do Espírito Santo; que há uma comunidade eterna e única dos santos, o corpo de Cristo: a Igreja, santa e gloriosa, eternamente e espiritualmente unida, apesar de estar separada por divisões temporárias e dissensões doutrinárias; que Deus nos deixou sua Palavra, santa e inspirada, proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, e para instruir em justiça; que um dia Jesus Cristo dará um fim à história humana, e que todos- os vivos e os mortos, os santos e os pecadores- darão contas perante a ele; que novos céus e nova terra aguardam os que pertencem ao Senhor, mas todo aquele que recusou sua misericórdia sofrerá eternamente sob seu juízo.
Estes são os pontos sobre os quais todo cristão pode (ou ao menos deveria) concordar, os ossos do cristianismo, os fundamentos sem os quais o edifício não pode ser construído. Não digo que a fé resultará apenas nestas crenças, mas que a fé não virá sem que elas venham junto. E é esta fé, que vem do Senhor e transforma nossas mentes, que traz a salvação, tanto do protestante quanto do católico. Esta é, de modo resumido e grosso, a posição protestante, e é o que queremos dizer quando pregamos que a salvação vem pela fé.
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quarta-feira, 9 de julho de 2008
E tem mais uma coisa
É verdade que estou aqui dividindo espaço com três hereges, o que pode dar a impressão errada de que eu concordo com as opiniões pessoais deles ou que não zelo pelos meus leitores, expondo-os a posições doutrionárias inaceitáveis.
Desconfortos de centrar-se em um absoluto. O livre-exame, que João, Éber e Gustavo proclamam, permite que eles façam conviver confortavelmente suas crenças, sem maior agravo. Eu não. Tenho que dizer, na face, que o livre-exame é uma heresia da qual só pode decorrer muitas outras heresias.
Eu não os amo? Claro que amo. Amo os pecadores, sem amar o pecado (até a mim me amo, e odeio meus pecados). Amo os amigos, sem amar seus erros. Amo a Deus vivendo neles. E amo a nossa base comum: As palavras do Cristo na Bíblia. A tradição Católica é um chão onde aqui somente eu ando, assim como eles seguem as tradições anglicana, luterana ou pentecostal.
No entanto, o que me levou a ser católico foi uma grande vontade de encontrar o Cristo real. Procurei, e achei o Santo Apóstolo Pedro, os santos papas seus sucessores, todos os Santos; creio que enquanto isso, Nossa Senhora pediu, e foi Nosso Senhor que me encontrou.
Então, isto claro, digo: Nossa espada comum é para os ateus, para os pagãos, e mesmo para os crentes e católicos que falam de Cristo sem conhecê-lo. É para você ver que esse assunto, o Cristianismo, está cheio de seriedade. Que seus preconceitos contra a fé são apenas isso: superstições modernas. Para os infiéis nossa espada. Mas não somos muçulmanos, então, quem quiser nossa espada pode também fazê-la sua - basta ver que ela é, de fato, uma cruz.
Isto posto, proponho uma brincadeirinha.
Eu acredito que aquele que não pertence à única Igreja de Cristo (preciso dizer qual?), quando morre, vai pro inferno, com exceção daqueles que por ignorância invencível não podem conhecer o evangelho (estes podem-se dizer que sejam batizados por desejo, se obedecem a lei natural) e daqueles que, tendo sido batizados validamente (em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, com intenção de perdoar os pecados, tanto original quanto atuais), mesmo que ilicitamente, pertencem à Igreja Invisível, ou seja, mesmo fora da Igreja Católica são seus membros espiritualmente.
Aplicando estes dados, creio que meus três companheiros de blog podem, sim, ir pro céu, se se arrependerem de seus pecados e se amarem ao longo da vida a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, deixando este amor crescer e frutificar (eu rezando para que seja numa conversão). Isto é, pela obra de pertencimento mesmo que inconsciente à Igreja, podem se salvar.
Enquanto isso, eles crêem que eu me salve pela fé. Mas basta mesmo ter fé? Creio em um só Deus, Pai Onipotente, e em Jesus Cristo, seu filho unigênito, Nosso Senhor - Isso basta para ir pro céu? Ou senão, que tipo de fé salva e que tipo de fé perde? Com essa questão levantada, encomendo posts.
Desconfortos de centrar-se em um absoluto. O livre-exame, que João, Éber e Gustavo proclamam, permite que eles façam conviver confortavelmente suas crenças, sem maior agravo. Eu não. Tenho que dizer, na face, que o livre-exame é uma heresia da qual só pode decorrer muitas outras heresias.
Eu não os amo? Claro que amo. Amo os pecadores, sem amar o pecado (até a mim me amo, e odeio meus pecados). Amo os amigos, sem amar seus erros. Amo a Deus vivendo neles. E amo a nossa base comum: As palavras do Cristo na Bíblia. A tradição Católica é um chão onde aqui somente eu ando, assim como eles seguem as tradições anglicana, luterana ou pentecostal.
No entanto, o que me levou a ser católico foi uma grande vontade de encontrar o Cristo real. Procurei, e achei o Santo Apóstolo Pedro, os santos papas seus sucessores, todos os Santos; creio que enquanto isso, Nossa Senhora pediu, e foi Nosso Senhor que me encontrou.
Então, isto claro, digo: Nossa espada comum é para os ateus, para os pagãos, e mesmo para os crentes e católicos que falam de Cristo sem conhecê-lo. É para você ver que esse assunto, o Cristianismo, está cheio de seriedade. Que seus preconceitos contra a fé são apenas isso: superstições modernas. Para os infiéis nossa espada. Mas não somos muçulmanos, então, quem quiser nossa espada pode também fazê-la sua - basta ver que ela é, de fato, uma cruz.
Isto posto, proponho uma brincadeirinha.
Eu acredito que aquele que não pertence à única Igreja de Cristo (preciso dizer qual?), quando morre, vai pro inferno, com exceção daqueles que por ignorância invencível não podem conhecer o evangelho (estes podem-se dizer que sejam batizados por desejo, se obedecem a lei natural) e daqueles que, tendo sido batizados validamente (em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, com intenção de perdoar os pecados, tanto original quanto atuais), mesmo que ilicitamente, pertencem à Igreja Invisível, ou seja, mesmo fora da Igreja Católica são seus membros espiritualmente.
Aplicando estes dados, creio que meus três companheiros de blog podem, sim, ir pro céu, se se arrependerem de seus pecados e se amarem ao longo da vida a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, deixando este amor crescer e frutificar (eu rezando para que seja numa conversão). Isto é, pela obra de pertencimento mesmo que inconsciente à Igreja, podem se salvar.
Enquanto isso, eles crêem que eu me salve pela fé. Mas basta mesmo ter fé? Creio em um só Deus, Pai Onipotente, e em Jesus Cristo, seu filho unigênito, Nosso Senhor - Isso basta para ir pro céu? Ou senão, que tipo de fé salva e que tipo de fé perde? Com essa questão levantada, encomendo posts.
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Igor
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quinta-feira, 3 de julho de 2008
A ciência faz obsoleto crer em Deus?
Em nossa intimidade, nós modernos continuamos insatisfeitos. Cedo ou tarde encaramos uma crise existencial, e reconhecemos em nossas vidas algo destruído, desordenado, pedindo por redenção. O fato de que possamos reconhecer a desordem, a destruição e o pecado significa que estes ocorrem um uma situação maior de ordem, beleza e bondade, ou em princípio não poderíamos reconhecê-los como tais. Ainda assim a destruição e a desordem são dolorosamente presentes, e a alma humana por sua própria natureza busca algo mais, uma felicidade mais profunda, um bem definitivo. A contemplação da ordem e da beleza na natureza pode nos conduzir a um Algo, ao "deus dos filósofos", mas contemplar nossa incompletude pode nos levar além, a procura de um alguém que é o Bem de nós todos.
A ciência nunca tornará esta procura obsoleta.
(Final da resposta do Cardeal Schönborn, Arcebispo de Viena. Tradução da casa. As outras você pode ler aqui.)
terça-feira, 1 de julho de 2008
A Missa Tradicional
A Missa Tradicional, chamada também Tridentina, de São Pio V, Latina, Gregoriana, Missa de Sempre, Missa Antiga (..), é a Missa da Igreja Católica Apostólica Romana em sua forma tradicional, isto é, de acordo com as formas canonizadas por São Pio V para marcar o ato positivo da Igreja que correspondia à condenação da reforma protestante, e em uso até a reforma litúrgica que instituiu o NOVUS ORDO MISSAE de Paulo VI em substituição ao Missal impresso sob o Beato Papa João XXIII.
Há várias diferenças de ordem teológica entre ambas, que podem ser estudadas em detalhe, consultando-se as fontes disponíveis e ouvindo o magistério da Igreja. No entanto, as diferenças mais comentadas são de ordem estética, ou seja, relacionados mais à forma que ao espírito. Como cremos com sinceridade, oramos com sinceridade: Portanto esta divisão entre forma e conteúdo é apenas conceitual, enquanto permanece a identidade entre devoção espiritual (a fé, a esperança e a caridade que nos movem) e devoção corporal (o idioma, a postura e os gestos que usamos).
Por que o Latim?
1) Porque o Latim é uma língua já não mais utilizada para a vida do dia-a-dia, ou seja, é uma língua estável. Não se pode dizer que seja língua morta enquanto for língua da igreja. Mas sendo estável, o significado de suas palavras e expressões não muda, e portanto as diferentes gerações sempre entenderam e entenderão tudo que se diz na Missa da mesma forma.
2) Porque o Latim é belo: Isso já era reconhecido muito antes de haver Missa, por vários povos do mundo inteiro. Para Deus deve-se dar o melhor; portanto, deve-se ofertar o sacrifício da Missa na mais bela língua disponível para este ato. Além disso, há palavras em Grego e Hebraico, além dos trechos já habitualmente falados em língua vulgar.
3) Porque o Latim é universal: Aquele que se habitue ao latim da Missa poderá entendê-lo em qualquer lugar do mundo, independente de entender a língua local ou não, e saberá que toda a Igreja reza com as mesmas palavras.
Por que o altar voltado ao oriente?
1) Porque o sacrifício da Missa é oferecido a Deus, então convém que o sacerdote, celebrando na pessoa de Cristo, se volte para onde Deus está, voltando-se para o crucifixo, para o sacrário e para o leste, onde nasce o “sol da justiça”.
2) Porque o sacrifício da Missa é oferecido por Cristo, primeiramente, e em seguida pelo Sacerdote associado à assembléia; portanto convém que o Padre e o Povo tenham conjuntamente os olhos postos no objetivo comum.
3) Porque o padre, voltado para a assembléia, corre o risco de ser tentado a personalizar em excesso sua celebração, quando na verdade deve despersonalizar-se para rezar in persona Christi (Na pessoa de Cristo, ou representando Cristo). O Sacerdote não deve exercer um papel de liderança e de influência; mas antes deve apresentar-se como servo escolhido de Deus, para maior ação do Cristo em sua vida, para máxima imitação do Cristo.
Por que a comunhão de joelhos, e na boca?
1) Porque o pão e o vinho eucarísticos somente preservam as aparências de pão e vinho, mas são Jesus Cristo, Nosso Senhor e Nosso Deus, em Corpo, Sangue e Divindade. E diante de Deus todo joelho se dobre.
2) Porque a língua é o órgão da palavra, e o que nos diferencia de toda a criação, fazendo-nos “logo abaixo dos anjos”; suas obras podem ser piores (calúnias, mentiras, ofensas, e tantas outras) que as das mãos, e também podem ser melhores: Instrução, Encorajamento, Oração... Convém tornarmos nossa boca santuário do Senhor, pois através da boca saem as coisas que temos no coração, então através da boca deve entrar Nosso Senhor para habitar em nossa alma.
3) Porque muitas pessoas mal-intencionadas abusam da liberdade concedida pela Igreja ao dar a comunhão na mão para roubar o corpo de Cristo para uso em rituais satânicos - e isto é mais freqüente do que possa parecer.
Depois de tudo isto, por que a Missa Tradicional?
A Missa tradicional é um tesouro da Igreja, desenvolvido desde a sua criação por Cristo Jesus, que teve sua forma regulamentada para proveito de todo o povo de Deus por São Pio V e São Pio X. Nenhuma de suas principais características exteriores pelas quais é considerada “diferente”, “ultrapassada” e outras ofensas foi oficialmente proibida pela Igreja; ao contrário, continuam sendo a norma, embora o que hoje se veja com maior freqüência seja a exceção.
Mas não deve ser assim. Devemos obedecer ao magistério e à tradição da Igreja da melhor e não da pior forma possível. Se a Igreja nos abre exceções e concede facilidades, devemos analisar se é por necessidade real ou por comodismo que as vamos usufruir.
A comunhão na boca, e de joelhos, por exemplo, torna mais demorada a Missa. Mas será verdade que todos os presentes na fila estão em situação adequada para a recepção da hóstia? Nenhum vive em pecado? Nenhum está sem confissão?E mesmo assim, se nos sacrifica esperar pela comunhão de todos os fiéis na Igreja, será que lembramos que Jesus sofreu flagelo e crucifixão durante quase vinte horas, e não ficou numa fila por vinte minutos? Será que oferecemos a Deus este sofrimento em reparação aos nossos muitos pecados?
Esta maneira de pensar nos leva à conclusão de que não precisamos, honestamente, abandonar a tradição.
A reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II teve por fim obter uma maior participação dos fiéis na Liturgia. No entanto, isto não é vedado ao fiel que assiste uma Missa Tradicional! Há vários trechos dialogados e rezados pelos fiéis. Além disso, espera-se de cada presente na Missa uma atitude de adoração a Deus que é favorecida pela estrutura da mesma, pela beleza e simplicidade do canto, e pela atitude devota do celebrante.
Mas não foi proibida?
Nunca! Aquilo que foi costume por dois mil anos não pode ser crime de uma hora para outra. Aquilo que foi tesouro amado desde sempre não pode tornar-se opróbrio. O que foi holocausto agradável a Deus não pode ser ofensa.
A Missa em sua forma tradicional foi abandonada por muitos membros da Igreja, na intenção de torná-la mais atraente através da adaptação de suas maneiras às maneiras do mundo. E o resultado mais visível é que hoje já quase não se percebe diferença entre ser ou não católico, exceto pela presença na Missa dominical – que, ai de nós!, pouco se diferencia, muitas vezes, de um culto protestante ou de uma festa mundana.
Estamos neste mundo como Igreja Militante. Como fazer a vontade de Deus? Sendo sal da terra. Afirmando claramente as razões de nossa esperança. Mostrando a todos o Cristo Ressuscitado. Ele atrairá tudo a si, como Ele mesmo prometeu. A alegria de participarmos do corpo místico de Cristo será nosso maior argumento, e não a alegria vazia das danças e palmas. A Cruz de Deus será a nossa luz!
Viva Cristo Rei! Viva a Santa Una Igreja Católica, Apostólica, Romana!
Há várias diferenças de ordem teológica entre ambas, que podem ser estudadas em detalhe, consultando-se as fontes disponíveis e ouvindo o magistério da Igreja. No entanto, as diferenças mais comentadas são de ordem estética, ou seja, relacionados mais à forma que ao espírito. Como cremos com sinceridade, oramos com sinceridade: Portanto esta divisão entre forma e conteúdo é apenas conceitual, enquanto permanece a identidade entre devoção espiritual (a fé, a esperança e a caridade que nos movem) e devoção corporal (o idioma, a postura e os gestos que usamos).
Por que o Latim?
1) Porque o Latim é uma língua já não mais utilizada para a vida do dia-a-dia, ou seja, é uma língua estável. Não se pode dizer que seja língua morta enquanto for língua da igreja. Mas sendo estável, o significado de suas palavras e expressões não muda, e portanto as diferentes gerações sempre entenderam e entenderão tudo que se diz na Missa da mesma forma.
2) Porque o Latim é belo: Isso já era reconhecido muito antes de haver Missa, por vários povos do mundo inteiro. Para Deus deve-se dar o melhor; portanto, deve-se ofertar o sacrifício da Missa na mais bela língua disponível para este ato. Além disso, há palavras em Grego e Hebraico, além dos trechos já habitualmente falados em língua vulgar.
3) Porque o Latim é universal: Aquele que se habitue ao latim da Missa poderá entendê-lo em qualquer lugar do mundo, independente de entender a língua local ou não, e saberá que toda a Igreja reza com as mesmas palavras.
Por que o altar voltado ao oriente?
1) Porque o sacrifício da Missa é oferecido a Deus, então convém que o sacerdote, celebrando na pessoa de Cristo, se volte para onde Deus está, voltando-se para o crucifixo, para o sacrário e para o leste, onde nasce o “sol da justiça”.
2) Porque o sacrifício da Missa é oferecido por Cristo, primeiramente, e em seguida pelo Sacerdote associado à assembléia; portanto convém que o Padre e o Povo tenham conjuntamente os olhos postos no objetivo comum.
3) Porque o padre, voltado para a assembléia, corre o risco de ser tentado a personalizar em excesso sua celebração, quando na verdade deve despersonalizar-se para rezar in persona Christi (Na pessoa de Cristo, ou representando Cristo). O Sacerdote não deve exercer um papel de liderança e de influência; mas antes deve apresentar-se como servo escolhido de Deus, para maior ação do Cristo em sua vida, para máxima imitação do Cristo.
Por que a comunhão de joelhos, e na boca?
1) Porque o pão e o vinho eucarísticos somente preservam as aparências de pão e vinho, mas são Jesus Cristo, Nosso Senhor e Nosso Deus, em Corpo, Sangue e Divindade. E diante de Deus todo joelho se dobre.
2) Porque a língua é o órgão da palavra, e o que nos diferencia de toda a criação, fazendo-nos “logo abaixo dos anjos”; suas obras podem ser piores (calúnias, mentiras, ofensas, e tantas outras) que as das mãos, e também podem ser melhores: Instrução, Encorajamento, Oração... Convém tornarmos nossa boca santuário do Senhor, pois através da boca saem as coisas que temos no coração, então através da boca deve entrar Nosso Senhor para habitar em nossa alma.
3) Porque muitas pessoas mal-intencionadas abusam da liberdade concedida pela Igreja ao dar a comunhão na mão para roubar o corpo de Cristo para uso em rituais satânicos - e isto é mais freqüente do que possa parecer.
Depois de tudo isto, por que a Missa Tradicional?
A Missa tradicional é um tesouro da Igreja, desenvolvido desde a sua criação por Cristo Jesus, que teve sua forma regulamentada para proveito de todo o povo de Deus por São Pio V e São Pio X. Nenhuma de suas principais características exteriores pelas quais é considerada “diferente”, “ultrapassada” e outras ofensas foi oficialmente proibida pela Igreja; ao contrário, continuam sendo a norma, embora o que hoje se veja com maior freqüência seja a exceção.
Mas não deve ser assim. Devemos obedecer ao magistério e à tradição da Igreja da melhor e não da pior forma possível. Se a Igreja nos abre exceções e concede facilidades, devemos analisar se é por necessidade real ou por comodismo que as vamos usufruir.
A comunhão na boca, e de joelhos, por exemplo, torna mais demorada a Missa. Mas será verdade que todos os presentes na fila estão em situação adequada para a recepção da hóstia? Nenhum vive em pecado? Nenhum está sem confissão?E mesmo assim, se nos sacrifica esperar pela comunhão de todos os fiéis na Igreja, será que lembramos que Jesus sofreu flagelo e crucifixão durante quase vinte horas, e não ficou numa fila por vinte minutos? Será que oferecemos a Deus este sofrimento em reparação aos nossos muitos pecados?
Esta maneira de pensar nos leva à conclusão de que não precisamos, honestamente, abandonar a tradição.
A reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II teve por fim obter uma maior participação dos fiéis na Liturgia. No entanto, isto não é vedado ao fiel que assiste uma Missa Tradicional! Há vários trechos dialogados e rezados pelos fiéis. Além disso, espera-se de cada presente na Missa uma atitude de adoração a Deus que é favorecida pela estrutura da mesma, pela beleza e simplicidade do canto, e pela atitude devota do celebrante.
Mas não foi proibida?
Nunca! Aquilo que foi costume por dois mil anos não pode ser crime de uma hora para outra. Aquilo que foi tesouro amado desde sempre não pode tornar-se opróbrio. O que foi holocausto agradável a Deus não pode ser ofensa.
A Missa em sua forma tradicional foi abandonada por muitos membros da Igreja, na intenção de torná-la mais atraente através da adaptação de suas maneiras às maneiras do mundo. E o resultado mais visível é que hoje já quase não se percebe diferença entre ser ou não católico, exceto pela presença na Missa dominical – que, ai de nós!, pouco se diferencia, muitas vezes, de um culto protestante ou de uma festa mundana.
Estamos neste mundo como Igreja Militante. Como fazer a vontade de Deus? Sendo sal da terra. Afirmando claramente as razões de nossa esperança. Mostrando a todos o Cristo Ressuscitado. Ele atrairá tudo a si, como Ele mesmo prometeu. A alegria de participarmos do corpo místico de Cristo será nosso maior argumento, e não a alegria vazia das danças e palmas. A Cruz de Deus será a nossa luz!
Viva Cristo Rei! Viva a Santa Una Igreja Católica, Apostólica, Romana!
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