Fiquei surpreso de perceber, ao ler o livro de Jeremias imediatamente após ler o livro de Isaías, o quanto mais perverso e cruel se tornou o povo de Judá durante a vida de Jeremias. Os pecados da elite política, econômica e sacerdotal de Judá durante o ministério de Isaías (cujas acusações poderiam ser resumidas como "Vocês ignoram os pobres! Abandonaram ao Senhor! São gananciosos e hipócritas! Não me consultaram quanto a decisões de política externa! E bebem demais!") são quase triviais quando comparados com os sacrifícios humanos e a pura audácia blasfema da geração posterior, que ergueu altares aos deuses cananeus no templo do Senhor.
Nas palavras de Jeremias, relatando a mensagem de Deus, "Para minha ira e para meu furor me tem sido esta cidade, desde o dia em que a edificaram até ao dia de hoje, para que a tirasse da minha presença, por todas as maldades que os filhos de Israel e os filhos de Judá fizeram, para me provocarem á ira; eles e os seus reis, os seus príncipes, os seus sacerdotes e os seus profetas, como também os homens de Judá e os moradores de Jerusalém. E viraram para mim as costas e não o rosto; ainda que eu os ensinava, madrugando e ensinando-os, eles não deram ouvidos para receberem ensino. Antes, puseram seus abominações na casa que se chama pelo meu nome, para a profanarem. E edificaram os altos de Baal, que estão no vale do filho de Hinom, para fazerem passar seus filhos e suas filhas pelo fogo a Moloque, o que nunca lhes ordenei, nem subiu ao meu coração que fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá." (Jer. 32:31-35)
As palavras são chocantes se cremos que vem de Deus. Vemos o Deus onisciente dizendo que nunca imaginou, que nunca sequer lhe ocorreu, que "nem subiu ao meu coração" que o povo chegaria a sacrificar suas próprias crianças. Deus rejeitando seu próprio templo, chamando-o friamente de "a casa que se chama pelo meu nome". Enquanto a maioria das acusações em Isaías eram feitas contra os que estavam no poder, em Jeremias todo o povo está sob condenação, por pecados literalmente inimagináveis para gerações anteriores. "Porquanto me deixaram, e profanaram este lugar, e nele queimaram incenso a outros deuses, que nunca conheceram, nem eles, nem seus pais, nem os reis de Judá; e encheram este lugar de sangue de inocentes."
O que torna esta situação especialmente espantosa é seu contexto; a geração de Jeremias era a primeira em duas gerações a ter um rei que banisse a religião cananéia. Josias (cujo avô Manassés, roga a tradição, serrou o profeta Isaías ao meio) liderou uma reforma incrível do culto a Javé, destruindo os altares de Baal e restaurando o Templo. Quando Deus diz que o povo oferecia incenso e crianças vivas a deuses "que nunca conheceram", Ele não está exagerando; está notando que aquela geração tinha sido criada num contexto religioso incontaminado pelas barbaridades do culto cananeu. O que me deixa assustado.
Isso me deixa assustado porque não consigo deixar de ver uma relação causal entre o avivamento do culto a Deus sob Josias e a profundeza redobrada de paganismo e holocausto humano ao qual seus descendentes mergulharam. Quem sabe esse gusto com que Judá buscou deuses como Moloque se devia ás conversões forçadas de gerações anteriores, que talvez não foram inteiramente sinceras. Quem sabe C.S. Lewis estava certo quando disse que os grandes pecadores são feitos do mesmo material que os grandes santos, e que portanto a geração criada na maior santidade em sua juventude necessariamente se tornaria legendariamente depravada caso se apostatasse. O próprio Jesus descreve um princípio parecido em Lucas 11:24-26, dizendo que quando um espírito imundo que fora anteriormente expulso volta para "visitar" seu velho hóspede e encontra-o preparado para ele ("varrida e adornada", como se esperando sua chegada) ele volta e traz consigo mais sete espíritos piores do que ele; "e o último estado daquele homem é pior do que o primeiro."
Nós evangélicos somos orgulhosos de nosso crescimento numérico. Gabamo-nos do avivamento que infla nossas igrejas, e declaramos altamente que "O Brasil é de Jesus!" Muito bem, realmente é boa coisa que o evangelho tenha sido pregado em tantos lugares, para pessoas que nunca o consideraram sériamente antes. Mas tenho medo, medo real, que se não solidificarmos nossas igrejas, se não investirmos em educação cristã para leigos nas igrejas, se não consolidarmos nossas conquistas neste país- enfim, se não edificarmos os que já estão na igreja ao invés de apenas buscar novos convertidos- sinto que nossas vitórias terão sido em vão. Esta geração evangélica é maciçamente uma de convertidos; se não tivermos cuidado, a próxima será uma apenas de nascidos-na-igreja; e a próxima depois será uma de apóstatas e céticos. Ou nos preocupamos hoje em consolidar os que já estão na igreja-sem negligenciar o evangelismo, é claro- ou começamos quando for tarde demais; e já teremos perdido uma geração para o mundo. Se você acha a cultura brasileira ímpia e carnal hoje, imagine uma cultura brasileira pós-cristã.
A geração de Isaías, neta e bisneta de pagãos e falsos adoradores, foi avarenta e indulgente consigo mesma. A geração de Jeremias, criada no Templo ouvindo a Lei, foi espetacularmente cruel e perversa. Os demônios do povo voltaram sete vezes mais fortes após sua apostasia. Que isto nos sirva de aviso e lição.
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sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Deuses que nunca conheceram
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19:20
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sábado, 20 de setembro de 2008
Seppuku Espiritual
É curioso como, especialmente com a moda da batalha espiritual, o conceito da palavra de Deus como espada tem ganho popularidade. Em Efésios 6:17 Paulo chama seus leitores a tomarem "A espada do Espírito, que é a palavra de Deus", então a idéia da Palavra como um instrumento, como uma arma empregada contra o engano, é realmente válida. O problema é que esta passagem isolada não é o único uso deste conceito que encontramos na Bíblia. A idéia da Palavra cortante já existia bem antes de Paulo usá-la; de fato, bem antes da palavra em questão ser, necessariamente, a Palavra de Deus.
Ao falar de um companheiro traiçoeiro, Salmo 55:21 diz, em típico modo paralelístico, "Sua fala é macia como a manteiga, mas guerra está em seu coração; suas palavras são mais brandas que o azeite, todavia são espadas nuas." Esta imagem é repetida pelos salmos e em Provérbios: as palavras do do enganador, do blasfemador e do tolo são descritas como lâminas cortantes. "Eis que eles dão gritos com a boca; espadas estão em seus lábios." "Eles afiaram a sua língua como espadas; e armaram, por suas flechas, palavras amargas." "Há alguns cujas palavras são como pontas de espada, mas a língua dos sábios é saúde." Em todas estas passagens a palavra-como-espada é a palavra de engano e de escárnio; o rumor divisivo, o insulto humilhante, a mentira agradável aos ouvidos mas duplamente destrutiva. Segundo Tiago, a língua desregrada "contamina todo o corpo, inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno."
A palavra de Deus, por outro lado, é descrita desde o início como possessora de poderes criativos; Deus cria o universo ex nihilo com sua palavra, e sustenta toda a criação "pela palavra de seu poder." E como Pedro explica, este poder criativo da palavra opera na própria salvação, "Pois fostes de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela Palavra de Deus, viva e que permance para sempre." Agora, o homem é incapaz de realmente criar ou destruir qualquer coisa, e pode apenas usar suas palavras (e mais qualquer habilidade que ele possua)para manipular seu ambiente; suas palavras podem apenas enganar ou consolar. Onde a palavra do homem é tentativa, porém, a palavra de Deus é absolutamente, esmagadoramente eficaz, e cumpre seu propósito não por seu mérito em convencer alguém de alguma proposição, mas simplesmente por ser a expressão da vontade de Deus. Assim, se a Palavra de Deus tem poder irrestrito para criar, seu poder destrutivo é de igual maneira ilimitado. O Servo do Senhor tem uma boca "como uma espada afiada". O Apocalipse de João diz que Jesus, vindo em poder e juízo, "segurava sete estrelas em sua mão direita, e da sua boca saía uma aguda espada de dois gumes; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandesce." "Arrepende-te, pois! Ou em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca." "E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com cetro de ferro, e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-poderoso." "E os demais foram mortos com a espada que saía da boca do que estava assentado sobre o cavalo, e todas as aves se fartaram das suas carnes."
Agora, alguns dirão que não podemos identificar esta palavra criativa (em Gênesis) e destrutiva (em Apocalipse) de Deus com a Bíblia em si, com estas palavras no papel que tenho em cima da mesa; e estão certos, são palavras diferentes, em ocasiões diferentes, para missões diferentes. Mas o Deus por trás de ambas é o mesmo; o poder mortificante e destrutivo da palavra Bíblica existe assim como seu poder vivificante, e a prova disto está em Hebreus 4:11-13. Ao falar do repouso que Deus tem para seu povo, e contrastando os que o rejeitaram com os que o terão na eternidade, o autor adverte: "Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar."
Com duas alternativas pela frente- entrar no repouso ou receber o castigo da desobediência- o homem é confrontado pela Palavra de Deus; e a Palavra surge como uma força neutra ao homem, como um agente de juízo, como uma espada que destrincha o homem interiormente e expõe seus pensamentos, suas emoções, seus planos, suas desculpas. As defesas, os esquemas, as justificativas; todas as cascas anteriores são despidas, e a mente do homem é atingida diretamente pela revelação de Deus. A Palavra é, simultaneamente, a Escritura que aponta o caminho para o repouso de Deus e a espada que sai de sua boca, pronta para matar o velho homem para que o novo surja. A semente corruptível é destruída para que seja gerada a semente incorruptível, "pela Palavra de Deus, viva e que permanece para sempre."
E aqui está o ponto a que quero chegar: enquanto nós falamos da "Espada do Espírito" como algo que aplicamos ás idéias de outros, a própria revelação fala da Palavra como algo com que Deus nos fere, como a espada que nos retalha e expõe nossa podridão interior. Quando lemos a Bíblia, não somos meramente edificados; somos perfurados. Perfurados para que aquilo que temos dentro de nós seja exposto e destruído, para que sejamos recriados. Empunho a palavra como uma espada, mas a direciono precisamente contra meu peito, e cometo seppuku com a Espada do Espírito. A Palavra me fere, me destrincha, me abre por dentro. Para que diariamente eu morra, e diariamente Cristo viva em mim.
Ao falar de um companheiro traiçoeiro, Salmo 55:21 diz, em típico modo paralelístico, "Sua fala é macia como a manteiga, mas guerra está em seu coração; suas palavras são mais brandas que o azeite, todavia são espadas nuas." Esta imagem é repetida pelos salmos e em Provérbios: as palavras do do enganador, do blasfemador e do tolo são descritas como lâminas cortantes. "Eis que eles dão gritos com a boca; espadas estão em seus lábios." "Eles afiaram a sua língua como espadas; e armaram, por suas flechas, palavras amargas." "Há alguns cujas palavras são como pontas de espada, mas a língua dos sábios é saúde." Em todas estas passagens a palavra-como-espada é a palavra de engano e de escárnio; o rumor divisivo, o insulto humilhante, a mentira agradável aos ouvidos mas duplamente destrutiva. Segundo Tiago, a língua desregrada "contamina todo o corpo, inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno."
A palavra de Deus, por outro lado, é descrita desde o início como possessora de poderes criativos; Deus cria o universo ex nihilo com sua palavra, e sustenta toda a criação "pela palavra de seu poder." E como Pedro explica, este poder criativo da palavra opera na própria salvação, "Pois fostes de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela Palavra de Deus, viva e que permance para sempre." Agora, o homem é incapaz de realmente criar ou destruir qualquer coisa, e pode apenas usar suas palavras (e mais qualquer habilidade que ele possua)para manipular seu ambiente; suas palavras podem apenas enganar ou consolar. Onde a palavra do homem é tentativa, porém, a palavra de Deus é absolutamente, esmagadoramente eficaz, e cumpre seu propósito não por seu mérito em convencer alguém de alguma proposição, mas simplesmente por ser a expressão da vontade de Deus. Assim, se a Palavra de Deus tem poder irrestrito para criar, seu poder destrutivo é de igual maneira ilimitado. O Servo do Senhor tem uma boca "como uma espada afiada". O Apocalipse de João diz que Jesus, vindo em poder e juízo, "segurava sete estrelas em sua mão direita, e da sua boca saía uma aguda espada de dois gumes; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandesce." "Arrepende-te, pois! Ou em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca." "E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com cetro de ferro, e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-poderoso." "E os demais foram mortos com a espada que saía da boca do que estava assentado sobre o cavalo, e todas as aves se fartaram das suas carnes."
Agora, alguns dirão que não podemos identificar esta palavra criativa (em Gênesis) e destrutiva (em Apocalipse) de Deus com a Bíblia em si, com estas palavras no papel que tenho em cima da mesa; e estão certos, são palavras diferentes, em ocasiões diferentes, para missões diferentes. Mas o Deus por trás de ambas é o mesmo; o poder mortificante e destrutivo da palavra Bíblica existe assim como seu poder vivificante, e a prova disto está em Hebreus 4:11-13. Ao falar do repouso que Deus tem para seu povo, e contrastando os que o rejeitaram com os que o terão na eternidade, o autor adverte: "Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar."
Com duas alternativas pela frente- entrar no repouso ou receber o castigo da desobediência- o homem é confrontado pela Palavra de Deus; e a Palavra surge como uma força neutra ao homem, como um agente de juízo, como uma espada que destrincha o homem interiormente e expõe seus pensamentos, suas emoções, seus planos, suas desculpas. As defesas, os esquemas, as justificativas; todas as cascas anteriores são despidas, e a mente do homem é atingida diretamente pela revelação de Deus. A Palavra é, simultaneamente, a Escritura que aponta o caminho para o repouso de Deus e a espada que sai de sua boca, pronta para matar o velho homem para que o novo surja. A semente corruptível é destruída para que seja gerada a semente incorruptível, "pela Palavra de Deus, viva e que permanece para sempre."
E aqui está o ponto a que quero chegar: enquanto nós falamos da "Espada do Espírito" como algo que aplicamos ás idéias de outros, a própria revelação fala da Palavra como algo com que Deus nos fere, como a espada que nos retalha e expõe nossa podridão interior. Quando lemos a Bíblia, não somos meramente edificados; somos perfurados. Perfurados para que aquilo que temos dentro de nós seja exposto e destruído, para que sejamos recriados. Empunho a palavra como uma espada, mas a direciono precisamente contra meu peito, e cometo seppuku com a Espada do Espírito. A Palavra me fere, me destrincha, me abre por dentro. Para que diariamente eu morra, e diariamente Cristo viva em mim.
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