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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Da Vergonha de Ser Evangélico

Este post do Augustus Nicodemus e uma conversa de ontem com a Laila me fizeram pensar das vezes em que já senti vergonha de ser evangélico. São tantas coisas que provocam esse sentimento. As calhordices dos bispos e apóstolos cujas ovelhas existem apenas para a tosqueia. O anti-intelectualismo que glorifica a burrice barulhenta. Os evangelistas e cantores cujo status de superstar dentro das igrejas denuncia nossa ignorância e vulgaridade. A chatice de nossa música, nossos romances, nossos filmes, que tão raramente demonstram qualquer vestígio de brilho ou originalidade, mas são apenas cópias de cópias de arte secular- e má arte secular. A banda que é o Blink-182 evangélico; o Calcinha Preta gospel; os funkeiros da fé.

O problema é que mesmo enquanto enrubescemos de vergonha com as safadezas e cretinices do mundo evangélico, estamos engolindo a mentira de que ser evangélico é isso que os apóstolos e as bispas e os baderneiros representam. E não é. O problema é que nós deixamos os falsos pastores e os vendedores da fé se posicionarem na sociedade como os porta-vozes do mundo evangélico. Nós- com nossa ausência, nossa apatia, nossa falta de vontade de colocar a cara para bater- deixamos que a moeda falsa passasse por verdadeira, e que essa corja desonesta se fizesse o rosto do evangelicalismo brasileiro.

Daí vem os iluminados, os sábios entre nós que, no desespero de serem confundidos com a turba burra, já vão esclarecendo que não são evangélicos. Esses batistas, assembleianos, presbiterianos, metodistas tropeçando um sobre o outro na pressa de dizer que evangélicos são os outros. Eu não sou evangélico, sou seguidor de Cristo. Eu não sou evangélico, sou reformado. Eu não sou evangélico, sou protestante. Eu não sou evangélico, sou cristão. Já abandonamos o termo "crente"- qual foi a última vez que você ouviu alguém dizer, em público, "Eu sou crente"?- e agora estamos abandonando o termo evangélico, para não sermos jogados no mesmo balaio que os neopentecostais. Trememos de medo da reprovação alheia, dos olhares de zombaria, das perguntas do tipo "Mas você não acredita realmente que _______, acredita?"

É um ciclo. A liderança cínica de algumas igrejas propaga algum absurdo, nós escondemos num cantinho com vergonha, disfarçamos que não somos evangélicos- e você não me engana, seu batista que acha que beber cerveja é pecado, você É evangélico- e os charlatães consolidam-se como as vozes mais conhecidas (e logo, se não tomarmos cuidado, serão as únicas vozes) do evangelicalismo no discurso público.

Já chega. Estamos cansados de sobrar pra nós- crentes sérios, tolerantes, amantes de Deus, servos da Palavra- quando esses ladrões aprontam? Então vamos abrir a boca. Vamos confrontar essas pessoas, vamos expor seus enganos, vamos mostrar que ser evangélico não significa ser um idiota. Vamos dar uma surra de Bíblia nesse povo. Vamos mostrar que arte crente não precisa ser- ora raios, nunca deveria ter sido- derivativa. Vamos boicotar a marcha pra Jesus.

E vamos nos chamar, sim, de evangélicos. De crentes. E dessa vez, sem vergonha.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Feliz Aniversário, Calvino

Quinhentos anos atrás neste dia nasceu João Calvino, o mais malvado (e brilhante) dos reformadores.

Do mais bastardo de seus filhos, feliz aniversário, seu queimador de heréges!

domingo, 21 de setembro de 2008

Take that, Bento XVI.

Existe um acordo tácito entre protestantes e católicos que crêem que o outro lado não está indo (necessariamente) para o inferno: que o outro lado é salvo apesar de suas heresias, baseado naquilo que tem em comum com nosso lado (você sabe, o nosso lado, o do cristianismo verdadeiro). Assim, o Igor diz que sou salvo porque meu batismo foi, de certo modo, válido, e que sou membro da Madre Igreja mesmo sem reconhecê-la como Madre e just barely como Igreja. Assim eu digo que Igor foi salvo pela graça de Deus operando em seu espírito mediante a fé, e isto é provado por sua submissão ao Senhor. Cada um considera o outro um enganado, mas não um apóstata; um herége, certo, mas um irmão herége. Neste cessar-fogo surgem momentos de apreciação verdadeira pelas qualidades do outro lado, e admiração até pelas virtudes gastas em vão. Quando o rei Alfred lança seu tesouro aos pés da aparição de Maria e implora a ela por respostas ("Mother of God" the wanderer said, "I am but a common king, and not will I ask what saints may ask, to see a secret thing."), a cena é comovente não apenas por causa das circunstâncias desesperadas e urgentes de Alfred, mas por sua devoção real á Mãe de Jesus.

E é por isso que fiquei tão espantado com minha reação a um DVD de um pastor assembleiano que se converteu ao catolicismo. O homem (não direi seu nome aqui) listou como principal motivo de sua adesão ao catolicismo o culto da Virgem, e isto (eu prometo) não me fez automaticamente hostil. Mas ao relatar com sua vozinha ovina sua conversão- sua visão num sonho de uma mulher que, acredita ele, é Santa Isabel; sua defesa de imagens; sua adulação contínua de Maria e do papa; sua invocação de anjos (que quando ocorre nas igrejas pentecostais é misticismo e bobagem, mas nas igrejas católicas é diferente, é chamar São Miguel e São Gabriel); sua indignação e surpresa de que a Assembléia de Deus não aceitaria em sua convenção um homem que cultuasse santos; tudo isto me irritou bastante, e confesso que fiquei surpreso com isso. Não justifico minha irritação, mas aqui não estava um católico que, apesar de seu catolicismo conhecia a fé verdadeira; aqui estava um homem que conhecia a fé verdadeira, e então mergulhou de cabeça em tudo aquilo que a reforma deixou para trás, abandonando sua fé nas Escrituras para confiar na voz de homens. Eu senti uma indignação não apenas doutrinária, mas cultural, emocional, pessoal. Se você é ateu ou agnóstico, imagine sua reação perante um físico que abandonou sua confiança na ciência e se tornou mórmon após ver uma imagem de Jesus numa torrada.

E entendi, pela primeira vez, a raiva que alguns católicos tem contra as igrejas protestantes. Desde que nasci as Igrejas evangélicas só fazem crescer, com novos-convertidos oriundos, na maioria dos casos, da igreja Católica; e descobri que ver a defecção de um do seu lado é um espetáculo amargo. Mas ainda darei um troco nos católicos; vou converter o Igor ás Assembléias de Deus. Take that, Bento XVI.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

E isto não vem de vós

Respondendo ao desafio do Igor, vou explicar, de modo grosso e geral, o que significa o conceito protestante de salvação pela fé. Salvação pela fé é uma expressão mal-usada, muitas vezes, justamente porque leva pessoas a acharem que tudo o que basta para a salvação é uma espécie de assentimento intelectual. "Sim, sim, Deus é jóia, e Jesus é maravilhoso- agora sou salvo também." Não é. A salvação nunca- nunca, nunca- pode partir de iniciativa nossa, nunca é uma decisão inicial nossa, nunca é uma busca nossa. Não é uma questão simples de "ter" fé. Mas vamos começar do começo.

O homem sem Deus não tem a possibilidade, a chance, a sombra de uma esperança, de satisfazer a justiça eterna de Deus, e nem a menor vontade de fazê-lo. Romanos 3:9-20 já explica claramente a posição humana. Por isto, apesar de muito querer, não consigo acreditar na salvação daqueles que nunca ouviram o evangelho; eles não podem ser batizados pelo desejo pelo simples motivo de que o desejo do homem caído é completamente corrompido. Egoísmo, ódio, e a inimizade contra Deus são o status espiritual inicial de todo ser humano, e é isto- e não o fato de nunca terem ouvido o evangelho- que os condena. É a doença que mata, não a falta de remédio.

Esta incapacidade de justiça real, de buscar a Deus, também é o motivo pelo qual o homem não pode simplesmente escolher ter fé. É o motivo pelo qual obra nenhuma- nem mesmo a obra de amar a igreja, ou de pertencer a ela- pode salvar; nossa justiça é imunda, nossas mãos são fracas, nossa vontade é escrava, e nossa fé não é nem mesmo nossa, porque é um dom de Deus, e não uma decisão humana. Se o homem pudesse ser salvo por obras, poderia ser salvo pela lei; e se o homem pode ser salvo pela lei, Jesus morreu em vão. O homem é salvo inteiramente pela ação e misericórdia de Deus. Ele nos busca, e não vice-versa. Nesta visão de depravação total tanto calvinistas como arminianos concordam.

O novo nascimento, o momento em que o homem deixa de viver em trevas e passa a andar na luz, o momento em que ele deixa de pertencer ao mundo e passa a ser um filho de Deus, é resultado da fé. Através da fé o homem pode aceitar o sacrifício de Cristo, através da fé o homem pode entrar na nova existência; mas esta fé não é, como já foi dito acima, uma atitude humana, um mero assentimento intelectual. É dom de Deus. Aliás, o próprio Paulo explica isto majestosamente em Efésios 2, uma das mais perfeitas exposições da doutrina da salvação. Daí a dificuldade de definir "que tipo de fé" salva; porque a única fé verdadeira, a fé real que gera arrependimento e salvação, vem exclusivamente do alto, e é impossível compreendê-la completamente.

Quanto a como o homem recebe esta fé- seja pela graça irresistível de Deus, segundo seu conselho eterno (como diria um calvinista), seja pela graça preveniente de Deus, segundo sua vontade de salvar a todos (como diria um arminiano)- isto é objeto de debate esquentado; mas debate intra-protestante, e não debate protestante-católico. Ambos, no final, afirmam a mesma coisa: apesar da salvação vir pela fé, a fé não é criada por nós, mas dada por Deus. A salvação não vem se você combinar as doutrinas certas em sua mente, como se a salvação fosse uma receita de bolo com diversos ingredientes; a salvação vem quando você recebe de Deus o dom da fé- e esta fé não é uma sensação fofinha, uma mera inclinação espiritual ou mística, mas carrega dentro de si um conjunto de doutrinas sólidas e eternas. A fé não é mero assentimento intelectual, mas ela opera não somente no coração, mas também (e talvez principalmente) na mente.

Quanto ao conteúdo desta fé, os pontos específicos nos quais passamos a crer, é complicado dizer que um ou outro é absolutamente necessário como sinal de que a fé é verdadeira. Creio, porém, que a fé gerada por Deus estará fundamentada nas seguintes verdades: que há um só Deus em três pessoas: Pai, Filho, e Espírito Santo; que este Deus é nosso criador, e criador do universo, e que todas as coisas foram criadas para sua glória; que pelo pecado de Adão nos tornamos pecadores merecedores do inferno, mas a misericórdia de Jesus Cristo, Deus e Filho de Deus, excedeu nossa iniquidade; que Jesus Cristo, o Filho eterno, o Logos de Deus, a perfeita expressão de seu caráter, se fez carne, viveu sem pecado, foi traído, torturado, e executado, e pagou por nossos pecados com seu justíssimo sangue; que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, vencendo a morte e garantindo a ressurreição futura daqueles que o servem; que Jesus Cristo ascendeu ao Pai, e está assentado ao seu lado direito, governando sua igreja e preparando um lugar para ela na eternidade; que Deus agora aceita e justifica suas criaturas pelo sacrifício de Cristo; que ao homem justificado é possível buscar santificação, e viver em obediência a Deus, através do poder e da presença vivificante do Espírito Santo; que há uma comunidade eterna e única dos santos, o corpo de Cristo: a Igreja, santa e gloriosa, eternamente e espiritualmente unida, apesar de estar separada por divisões temporárias e dissensões doutrinárias; que Deus nos deixou sua Palavra, santa e inspirada, proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, e para instruir em justiça; que um dia Jesus Cristo dará um fim à história humana, e que todos- os vivos e os mortos, os santos e os pecadores- darão contas perante a ele; que novos céus e nova terra aguardam os que pertencem ao Senhor, mas todo aquele que recusou sua misericórdia sofrerá eternamente sob seu juízo.

Estes são os pontos sobre os quais todo cristão pode (ou ao menos deveria) concordar, os ossos do cristianismo, os fundamentos sem os quais o edifício não pode ser construído. Não digo que a fé resultará apenas nestas crenças, mas que a fé não virá sem que elas venham junto. E é esta fé, que vem do Senhor e transforma nossas mentes, que traz a salvação, tanto do protestante quanto do católico. Esta é, de modo resumido e grosso, a posição protestante, e é o que queremos dizer quando pregamos que a salvação vem pela fé.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

E tem mais uma coisa

É verdade que estou aqui dividindo espaço com três hereges, o que pode dar a impressão errada de que eu concordo com as opiniões pessoais deles ou que não zelo pelos meus leitores, expondo-os a posições doutrionárias inaceitáveis.

Desconfortos de centrar-se em um absoluto. O livre-exame, que João, Éber e Gustavo proclamam, permite que eles façam conviver confortavelmente suas crenças, sem maior agravo. Eu não. Tenho que dizer, na face, que o livre-exame é uma heresia da qual só pode decorrer muitas outras heresias.

Eu não os amo? Claro que amo. Amo os pecadores, sem amar o pecado (até a mim me amo, e odeio meus pecados). Amo os amigos, sem amar seus erros. Amo a Deus vivendo neles. E amo a nossa base comum: As palavras do Cristo na Bíblia. A tradição Católica é um chão onde aqui somente eu ando, assim como eles seguem as tradições anglicana, luterana ou pentecostal.

No entanto, o que me levou a ser católico foi uma grande vontade de encontrar o Cristo real. Procurei, e achei o Santo Apóstolo Pedro, os santos papas seus sucessores, todos os Santos; creio que enquanto isso, Nossa Senhora pediu, e foi Nosso Senhor que me encontrou.

Então, isto claro, digo: Nossa espada comum é para os ateus, para os pagãos, e mesmo para os crentes e católicos que falam de Cristo sem conhecê-lo. É para você ver que esse assunto, o Cristianismo, está cheio de seriedade. Que seus preconceitos contra a fé são apenas isso: superstições modernas. Para os infiéis nossa espada. Mas não somos muçulmanos, então, quem quiser nossa espada pode também fazê-la sua - basta ver que ela é, de fato, uma cruz.

Isto posto, proponho uma brincadeirinha.

Eu acredito que aquele que não pertence à única Igreja de Cristo (preciso dizer qual?), quando morre, vai pro inferno, com exceção daqueles que por ignorância invencível não podem conhecer o evangelho (estes podem-se dizer que sejam batizados por desejo, se obedecem a lei natural) e daqueles que, tendo sido batizados validamente (em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, com intenção de perdoar os pecados, tanto original quanto atuais), mesmo que ilicitamente, pertencem à Igreja Invisível, ou seja, mesmo fora da Igreja Católica são seus membros espiritualmente.

Aplicando estes dados, creio que meus três companheiros de blog podem, sim, ir pro céu, se se arrependerem de seus pecados e se amarem ao longo da vida a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, deixando este amor crescer e frutificar (eu rezando para que seja numa conversão). Isto é, pela obra de pertencimento mesmo que inconsciente à Igreja, podem se salvar.

Enquanto isso, eles crêem que eu me salve pela fé. Mas basta mesmo ter fé? Creio em um só Deus, Pai Onipotente, e em Jesus Cristo, seu filho unigênito, Nosso Senhor - Isso basta para ir pro céu? Ou senão, que tipo de fé salva e que tipo de fé perde? Com essa questão levantada, encomendo posts.

terça-feira, 1 de julho de 2008