sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Deuses que nunca conheceram

Fiquei surpreso de perceber, ao ler o livro de Jeremias imediatamente após ler o livro de Isaías, o quanto mais perverso e cruel se tornou o povo de Judá durante a vida de Jeremias. Os pecados da elite política, econômica e sacerdotal de Judá durante o ministério de Isaías (cujas acusações poderiam ser resumidas como "Vocês ignoram os pobres! Abandonaram ao Senhor! São gananciosos e hipócritas! Não me consultaram quanto a decisões de política externa! E bebem demais!") são quase triviais quando comparados com os sacrifícios humanos e a pura audácia blasfema da geração posterior, que ergueu altares aos deuses cananeus no templo do Senhor.

Nas palavras de Jeremias, relatando a mensagem de Deus, "Para minha ira e para meu furor me tem sido esta cidade, desde o dia em que a edificaram até ao dia de hoje, para que a tirasse da minha presença, por todas as maldades que os filhos de Israel e os filhos de Judá fizeram, para me provocarem á ira; eles e os seus reis, os seus príncipes, os seus sacerdotes e os seus profetas, como também os homens de Judá e os moradores de Jerusalém. E viraram para mim as costas e não o rosto; ainda que eu os ensinava, madrugando e ensinando-os, eles não deram ouvidos para receberem ensino. Antes, puseram seus abominações na casa que se chama pelo meu nome, para a profanarem. E edificaram os altos de Baal, que estão no vale do filho de Hinom, para fazerem passar seus filhos e suas filhas pelo fogo a Moloque, o que nunca lhes ordenei, nem subiu ao meu coração que fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá." (Jer. 32:31-35)

As palavras são chocantes se cremos que vem de Deus. Vemos o Deus onisciente dizendo que nunca imaginou, que nunca sequer lhe ocorreu, que "nem subiu ao meu coração" que o povo chegaria a sacrificar suas próprias crianças. Deus rejeitando seu próprio templo, chamando-o friamente de "a casa que se chama pelo meu nome". Enquanto a maioria das acusações em Isaías eram feitas contra os que estavam no poder, em Jeremias todo o povo está sob condenação, por pecados literalmente inimagináveis para gerações anteriores. "Porquanto me deixaram, e profanaram este lugar, e nele queimaram incenso a outros deuses, que nunca conheceram, nem eles, nem seus pais, nem os reis de Judá; e encheram este lugar de sangue de inocentes."

O que torna esta situação especialmente espantosa é seu contexto; a geração de Jeremias era a primeira em duas gerações a ter um rei que banisse a religião cananéia. Josias (cujo avô Manassés, roga a tradição, serrou o profeta Isaías ao meio) liderou uma reforma incrível do culto a Javé, destruindo os altares de Baal e restaurando o Templo. Quando Deus diz que o povo oferecia incenso e crianças vivas a deuses "que nunca conheceram", Ele não está exagerando; está notando que aquela geração tinha sido criada num contexto religioso incontaminado pelas barbaridades do culto cananeu. O que me deixa assustado.

Isso me deixa assustado porque não consigo deixar de ver uma relação causal entre o avivamento do culto a Deus sob Josias e a profundeza redobrada de paganismo e holocausto humano ao qual seus descendentes mergulharam. Quem sabe esse gusto com que Judá buscou deuses como Moloque se devia ás conversões forçadas de gerações anteriores, que talvez não foram inteiramente sinceras. Quem sabe C.S. Lewis estava certo quando disse que os grandes pecadores são feitos do mesmo material que os grandes santos, e que portanto a geração criada na maior santidade em sua juventude necessariamente se tornaria legendariamente depravada caso se apostatasse. O próprio Jesus descreve um princípio parecido em Lucas 11:24-26, dizendo que quando um espírito imundo que fora anteriormente expulso volta para "visitar" seu velho hóspede e encontra-o preparado para ele ("varrida e adornada", como se esperando sua chegada) ele volta e traz consigo mais sete espíritos piores do que ele; "e o último estado daquele homem é pior do que o primeiro."

Nós evangélicos somos orgulhosos de nosso crescimento numérico. Gabamo-nos do avivamento que infla nossas igrejas, e declaramos altamente que "O Brasil é de Jesus!" Muito bem, realmente é boa coisa que o evangelho tenha sido pregado em tantos lugares, para pessoas que nunca o consideraram sériamente antes. Mas tenho medo, medo real, que se não solidificarmos nossas igrejas, se não investirmos em educação cristã para leigos nas igrejas, se não consolidarmos nossas conquistas neste país- enfim, se não edificarmos os que já estão na igreja ao invés de apenas buscar novos convertidos- sinto que nossas vitórias terão sido em vão. Esta geração evangélica é maciçamente uma de convertidos; se não tivermos cuidado, a próxima será uma apenas de nascidos-na-igreja; e a próxima depois será uma de apóstatas e céticos. Ou nos preocupamos hoje em consolidar os que já estão na igreja-sem negligenciar o evangelismo, é claro- ou começamos quando for tarde demais; e já teremos perdido uma geração para o mundo. Se você acha a cultura brasileira ímpia e carnal hoje, imagine uma cultura brasileira pós-cristã.

A geração de Isaías, neta e bisneta de pagãos e falsos adoradores, foi avarenta e indulgente consigo mesma. A geração de Jeremias, criada no Templo ouvindo a Lei, foi espetacularmente cruel e perversa. Os demônios do povo voltaram sete vezes mais fortes após sua apostasia. Que isto nos sirva de aviso e lição.

2 comentários:

Eber disse...

caraca, sinistro... a gente sempre fala dos "desviados" e é incrível como isso realmente se aplica. nunca tinha parado pra pensar nisso...

Beatriz disse...

para ser sincera, "conehci" esse blog, ao, depois de uma conversa com uma amiga, onde eu disse pensar que o Obama poderia ser o anticristo, procurei o mesmo tipo de comentario no google, e entrei no blog. E depois de olhar e olhar, cheguei a esse poste. Confesso e gostei do mesmo, e do blog em si. Voltarei mais vezes... Ja ate adicionei aos favoritos aqui! rss