domingo, 21 de setembro de 2008

Take that, Bento XVI.

Existe um acordo tácito entre protestantes e católicos que crêem que o outro lado não está indo (necessariamente) para o inferno: que o outro lado é salvo apesar de suas heresias, baseado naquilo que tem em comum com nosso lado (você sabe, o nosso lado, o do cristianismo verdadeiro). Assim, o Igor diz que sou salvo porque meu batismo foi, de certo modo, válido, e que sou membro da Madre Igreja mesmo sem reconhecê-la como Madre e just barely como Igreja. Assim eu digo que Igor foi salvo pela graça de Deus operando em seu espírito mediante a fé, e isto é provado por sua submissão ao Senhor. Cada um considera o outro um enganado, mas não um apóstata; um herége, certo, mas um irmão herége. Neste cessar-fogo surgem momentos de apreciação verdadeira pelas qualidades do outro lado, e admiração até pelas virtudes gastas em vão. Quando o rei Alfred lança seu tesouro aos pés da aparição de Maria e implora a ela por respostas ("Mother of God" the wanderer said, "I am but a common king, and not will I ask what saints may ask, to see a secret thing."), a cena é comovente não apenas por causa das circunstâncias desesperadas e urgentes de Alfred, mas por sua devoção real á Mãe de Jesus.

E é por isso que fiquei tão espantado com minha reação a um DVD de um pastor assembleiano que se converteu ao catolicismo. O homem (não direi seu nome aqui) listou como principal motivo de sua adesão ao catolicismo o culto da Virgem, e isto (eu prometo) não me fez automaticamente hostil. Mas ao relatar com sua vozinha ovina sua conversão- sua visão num sonho de uma mulher que, acredita ele, é Santa Isabel; sua defesa de imagens; sua adulação contínua de Maria e do papa; sua invocação de anjos (que quando ocorre nas igrejas pentecostais é misticismo e bobagem, mas nas igrejas católicas é diferente, é chamar São Miguel e São Gabriel); sua indignação e surpresa de que a Assembléia de Deus não aceitaria em sua convenção um homem que cultuasse santos; tudo isto me irritou bastante, e confesso que fiquei surpreso com isso. Não justifico minha irritação, mas aqui não estava um católico que, apesar de seu catolicismo conhecia a fé verdadeira; aqui estava um homem que conhecia a fé verdadeira, e então mergulhou de cabeça em tudo aquilo que a reforma deixou para trás, abandonando sua fé nas Escrituras para confiar na voz de homens. Eu senti uma indignação não apenas doutrinária, mas cultural, emocional, pessoal. Se você é ateu ou agnóstico, imagine sua reação perante um físico que abandonou sua confiança na ciência e se tornou mórmon após ver uma imagem de Jesus numa torrada.

E entendi, pela primeira vez, a raiva que alguns católicos tem contra as igrejas protestantes. Desde que nasci as Igrejas evangélicas só fazem crescer, com novos-convertidos oriundos, na maioria dos casos, da igreja Católica; e descobri que ver a defecção de um do seu lado é um espetáculo amargo. Mas ainda darei um troco nos católicos; vou converter o Igor ás Assembléias de Deus. Take that, Bento XVI.

12 comentários:

Gustavo Nagel disse...

«Se você é ateu ou agnóstico, imagine sua reação perante um físico que abandonou sua confiança na ciência e se tornou mórmon após ver uma imagem de Jesus numa torrada.»

:-D

Igor disse...

"um católico que, apesar de seu catolicismo conhecia a fé verdadeira": Minha biografia vai ter este subtítulo na Holanda e na livraria da Ulbra.

Igor disse...

Uma outra coisa é que eu não acho que você seja salvo porque isso de salvação presumida é coisa de vocês. Eu acho possível você ir pro céu, mas para isso você tem que pertencer à Igreja e estar em estado de graça ao morrer; o que não é necessário é você saber disso.

Uma boa maneira de você saber que não estaria salvo se morresse agora é considerar-se salvo, aliás.

Gustavo Nagel disse...

Uma boa maneira de você saber que não estaria salvo se morresse agora é considerar-se salvo, aliás.

Considerar-se salvo, que é, a rigor, uma das idéias mais caras de toda a teologia reformada -- ou protestante, como queira --, com a doutrina da justificação pela fé somente etc.

Igor disse...

Eu sei, eu sei. Entonces: É com cada um a escolha. Eu sei que tenho muito medo de ir pro inferno.

Gustavo Nagel disse...

Eu sei também, rapaz. Foi só pra deixar os dois lados bem claros. Mas, na verdade, nem se trata de "considerar-se salvo". Trata-se mais de crer «que aquele que em [nós] começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus».

Abração.

André disse...

Eu não sou mórmon, nem vi imagens em torradas, mas duvido que meus amigos físicos me achem menos esquisito só por causa desses atenuantes.

MissGarfield disse...

eu faço a vontade de Deus para ser salva ou PORQUE estou salva? onde está a alegria do cristão se ele não se considerar realmente salvo? A diferença entre estar ou não realmente salvo, não tem a ver com o considerarmos que estamos salvos ou não, e sim com o acharmos que merecemos ou não essa salvação... será?

b.m. disse...

Eu sei que sou persona non grata e que em qualquer das religiões creio que termino no inferno anyway, mas o que a Miss Garfield disse me causou essa pergunta — ela disse: "eu faço a vontade de deus para ser salva ou POR QUE estou salva?".
Ora, não se deveria fazer a vontade de deus tão somente porque é a vontade de deus, sem a segurança de estar salvo, sem a segurança de ser compreendido, sem a segurança de receber qualquer recompensa por isso?
Me parece que é algo que ensina a história de Caim e Abel, assim como a de Isaac.

Igor disse...

b.m., quase creio estar sonhando, mas você está certo.

R. M. Ben disse...

Na verdade, em relação à causa de fazer a vontade de Deus, a confusão está no nosso conceito de salvação.

Não, a salvação não é uma moeda de troca para as obras, do tipo "faço se tu me salvares". A salvação aliás, não tem a ver só com o céu, como se Cristo nos salvasse do inferno. Aqueles que creêm nele serão salvos do inferno, mas ainda hoje, somos salvos de nossos pecados. Antes não podíamos fazer a vontade de Deus, porque nossos pecados nos impedíamos, e éramos mortos. Hoje, podemos fazer, porque a salvação de Cristo nos possibilita viver e então obedecer ao Deus de vivos.

Deste modo, creio que devemos considerar nossa salvação. Não como algo confortável que nos leve ao ócio, mas sim como uma realidade espiritual que nos permite agir.

Eber disse...

A gente faz alguma coisa com relação ao Reino de Deus porque nunca pudemos fazer nada para nos salvar e mesmo assim, Deus nos salvou. A gente faz como expressão de amor e não como pagamento ou mérito. A salvação é um presente que nunca poderiamos obter por nós mesmos e é por isso que agimos.